50 anos de TV no Brasil
A TV brasileira comemora seu cinquentenário, a partir das primeiras transmissões feitas em 1950 significativamente no âmbito do que se constituía, na época, o maior grupo empresarial de comunicações do Brasil: os Diários Associados.
Desde que o pensador italiano Antonio Gramsci estabeleceu conceitos teóricos para o que chamou de hegemonia, nas estruturas sociais, os meios de comunicação de massa passaram a ser vistos com suspeição. Seus críticos, reforçados pelo pensamento apocalíptico da Escola de Frankfurt, acusam suas instituições de colocar-se a serviço da classe dominante, disseminando valores identificados com sua ideologia.
Tais idéias encontraram eco nos nossos meios acadêmicos até mesmo nas próprias faculdades de comunicação e a mídia, com a TV pontificando entre as demais passou a ser vista como uma forma de manipulação do povo pelas classes dominantes.
Mas o que é intrinsecamente a televisão? Entre os meios de comunicação, ela compartilha com o rádio da característica de chegar gratuitamente à sua audiência, se se esquecer o investimento inicial da aquisição do receptor (e as novas transmissões fechadas via cabos ou satélites). O que leva as pessoas a manter, em suas casas, esses produtos classificados genericamente entre os eletrodomésticos é, portanto, o desejo de receber informação e entretenimento.
Contudo, do ponto de vista de quem opera o meio, o que se vai constituir no seu conteúdo (palavra que adquiriu grande prestígio, em tempos recentes) são (1) a programação e (2) os comerciais. Informação e entretenimento são as duas designações que cobrem praticamente tudo o que a TV mostra inclusive a propaganda. Mas existirá uma ideologia da TV? Mais especificamente, há uma ideologia televisiva brasileira? Nossos teóricos da comunicação praticamente todos encastelados nas universidades acham que sim. Imodestamente, discordo. Acho que não.
Embora seja evidente o comprometimento do conteúdo da TV, ele só é vaga ou indiretamente ideológico, uma vez que (1) a programação visa agradar à maioria dos seus consumidores e manter altos os índices de audiência, para que (2) os comerciais esses sim, de forte conteúdo ideológico, no que contêm de ingredientes de persuasão exerçam a sua função de estimular a compra de bens e de serviços.
Isso não é uma mera simplificação. Excetuando a TV Educativa que não consegue encontrar seu nicho a não ser quando mantida pelo poder público todas as empresas que operam no setor não podem ter, como principal objetivo, a qualidade da programação como produto cultural com todas suas implicações ético-culturais e, até mesmo, políticas (embora elas possam vir à tona, de vez em quando).
Seus papéis resumem-se a uma equação numérica: a maior quantidade de pessoas assistindo a um determinado programa, num determinado momento; para que a elas sejam exibidas as mensagens comerciais dos patrocinadores, pelo maior preço possível. Os programas passam a ser, assim, uma espécie de isca, cuja finalidade principal é manter o espectador atento, para que, durante os intervalos, mantenha a sua atenção e interesse voltados às mensagens publicitárias (o que, aliás, a pesquisa tem mostrado que não pode ser garantido...)
Mais do que qualquer outro meio de comunicação, a televisão brasileira ainda se constitui, basicamente, em um instrumento de marketing. Isso é bom ou é ruim? Não tenho certeza. Creio que os analistas sociais inclusive os mais críticos podem debruçar-se sobre a questão e chegar a conclusões proveitosas. O que não será possível fazer ignorando o problema, ou enfocando-o de forma incorreta ou incompleta.
Um grande jornal paulista, recentemente, dedicou um suplemento especial ao cinquentenário da TV brasileira. Nas 12 páginas carregadas de informação histórica sobre o meio, desde os seus primeiros programas ao vivo até as SitComs modernas, em que os espectadores são os atores, não mais do que meia dúzia de linhas foram dedicadas à propaganda na TV. Quase como se ela não existisse.
- J. ROBERTO WHITAKER PENTEADO é professor e dirigente de instituição universitária no Rio de Janeiro





