3/10 - ESPAÇO ABERTO - Nem acima nem abaixo, mas ao lado
Freire inovou em sua pedagogia ao colocar no centro o oprimido e sua condição de vida no mundo
PUBLICAÇÃO
sábado, 02 de outubro de 2021
Freire inovou em sua pedagogia ao colocar no centro o oprimido e sua condição de vida no mundo
Luís Miguel Luzio-Santos 

A história humana é prodiga em avanços técnico-científicos e materiais. Melhorias que mudaram drasticamente a vida de uma grande parcela da sociedade. Nos últimos cem anos, dobramos a expectativa de vida, criamos aeronaves que cruzam os céus como pássaros, conseguimos caminhar em solo lunar, inventamos mecanismos de comunicação que transformaram o mundo numa aldeia global, e o processamento de informações atingiu velocidade de um simples apertar de botão.
Paralelamente, nos tornamos mais individualistas e arrogantes, vivemos em bolhas, alheios à dor dos outros e continuamos a resolver conflitos por meio da força e da bala. O crescimento vertiginoso da riqueza e das condições materiais, confronta-se com a pobreza que atinge a maioria da população mundial. Criamos hierarquias que nos separam e distanciam a partir de uma ideia de “superioridade” de alguns poucos sobre as massas. Evoluímos tecnologicamente, mas continuamos primitivos em termos éticos, a ponto de colocarmos em xeque a própria continuidade da vida humana na Terra.
Paulo Freire, que completaria 100 anos neste mês de setembro, nos ensinou que um outro mundo pode ser possível a partir da relação afetuosa e empática de uns com os outros. Perceber cada um, não como competidor ou opositor, mas complemento, nem acima nem abaixo, mas ao lado. Todos temos o que aprender e o que ensinar numa relação de permanente troca de afetos e de solidariedade, porque só assim a vida se faz possível e vale a pena ser vivida.
Como Freire afirmava: "Ninguém ignora tudo. Ninguém sabe tudo. Todos nós sabemos alguma coisa. Todos nós ignoramos alguma coisa. Por isso aprenderemos sempre. Não há saber mais ou saber menos: há saberes diferentes. A humildade exprime uma das raras certezas, de que ninguém é superior a ninguém. Ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho, as pessoas se libertam em comunhão. E quando a educação não é verdadeiramente libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor".
O pensamento defendido por Freire é o de caminharmos sempre juntos, todos juntos, sem deixar ninguém para trás. Pois, se o meu êxito se fizer às custas do fracasso do outro, ou da sua humilhação, não será êxito, mas opressão e soberba. Porque a principal imoralidade fundamenta-se na ideia de superioridade, que se converte em dominação, seja ela econômica, sexual, racial, cultural, e que se consolida na violência dos mais fortes sobre os mais fragilizados.
Freire inovou em sua pedagogia ao colocar no centro o oprimido e sua condição de vida no mundo. Pois não há aprendizado verdadeiro se não for libertador, do contrário, não passará de adestramento e alienação. O processo de libertação exige compreender o contexto em que se está inserido, o processo histórico que produziu a realidade, envolve saber ler o mundo com um olhar crítico, reflexivo e questionador. Todos têm algo a dizer sobre o que os afeta e é a partir daí que se desenvolve a pedagogia emancipadora, uma pedagogia popular em que todos são agentes de conhecimento e produtores de cultura.
As ideias de Paulo Freire sempre foram mais faladas do que vividas, pois se confrontam com a estrutura posta, que não quer mudanças que ameacem privilégios. A materialização de um projeto que se deseja emancipatório, passa por um trabalho de base a partir das classes populares, numa perspectiva histórica, capaz de compreender o contexto de exploração e inferiorização a que as classes populares foram e são submetidas no país mais desigual do mundo. Essa condição, pode tanto ser explicada pela ótica do opressor, que a naturaliza e perpetua, ou pela ótica do oprimido, que quando a compreende, não descansa enquanto não consegue se libertar dos grilhões que o aprisionam e impedem de viver, reduzindo-o a apenas existir.
Luís Miguel Luzio-Santos é professor de Socioeconomia na UEL
Bernardo S.C.M. Oliveira é professor de Antropologia da City University of New York


