O romance ‘‘1984’’, de George Orwell, passou. ‘‘2001’’, o filme do Kubrick, está aí. O futuro um dia chega e a gente fica com cara de bobo ao ver que toda previsão é só um exercício gostoso de fazer. Só para desmentir.
Estamos sempre adiando o fundamental. Para 3001 ainda não fizeram romance nem filme. Nem sabemos se sobra mundo até lá. Pelas projeções, dá para assustar. O que entendemos, hoje, como modelo de desenvolvimento e civilização vai sofrer um impacto definitivo. Pela natureza.
As fissuras no casco do Titanic globalizador se mostram. A ruína do totalitarismo explícito – gângsteres políticos como Fujimori e Milosevic – já não se sustentam nas ‘‘ajudas externas’’ estilo Operação Condor ou Otan-anti-velha-URSS. É a ditadura soft que mais preocupa. A tal do ‘‘pensamento único’’. Aquela que exclui com a elegância mórbida dos cínicos: desemprega, taxa como maluco, desaquece espaços, detrata, isola quem não concorda com a soberana opinião corrente.
Os relatórios de hoje, da WWF e Greenpeace sobre a biodiversidade no Planeta, definem questões vitais. Não é mais se o CD vai desbancar o vinil, ou se a TV será online. Nem se os carros terão piloto automático ou se eletrodomésticos obedecerão ao comando da voz do dono. Isso é bobagem ou gadget de quinquilharias deslumbradas pela narcose shopping.
O buraco da camada de ozônio é mais embaixo. Países hiperindustrializados cuja consolidação econômica se deu por meio de coisas, máquinas e produtos terão aprofundado o atual choque dos novos serviços e o impacto das idéias – um programa de computador é mais um conceito que uma técnica, quase uma obra de arte utilitária cuja linguagem é a da máquina. Vimos o salto da Nasdaq, a bolsa das megaempresas sutis, sobre a bolsa das empresas tradicionais, quando da última ‘‘ameaça’’ dos juros estadunidenses repercutindo na economia.
O impacto maior do futuro vem da natureza. A eco-economia inverte a ótica predatória atual. Política centrada no humano é a utopia em que o meio ambiente seria o patrimônio-base da riqueza socializada. Afinal, de que adiantarão tantas posses, objetos, sistemas, tecnologias e máquinas se nos faltar água, alimento, afeto, cultura, prazer e um mínimo que nos satisfaça em uma escala de autonomia: quanto menos depender mais desprender.
Em 3001 não voltaremos às cavernas nem abandonaremos reconhecidos confortos da vida atual. Não se trata de um neo-hippismo alucinado pela alienada ‘‘salvação individual contra o mundo mau’’. É o renascer de uma profunda consciência de uso. Confirmar que a solidariedade não é um discurso oco e bocó de messianismo bicho-grilo, mas a saída fundamental para viver.
A água, finita, ameaçada e básica pode ser o ponto principal para descobrir quais países estão habilitados a um futuro. Menos entupidos do lixo das coisas e mais aliados do verdadeiro fluxo da paz: o viver bem consigo, com os outros e com o meio. É dar valor ao que nos valoriza. E não ao que apenas enriquece mercados.
- TT CATALÃO é jornalista em Brasília

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