O ano de 2019 foi difícil. Um turbilhão que se acumulava desembocou nesses doze meses quase tragicômicos. Bem observados, entretanto, eles nos desafiam como sociedade e abrem oportunidades interessantes.

A estupidez, o ódio e o autoritarismo hoje grassam. Mas propor que se lhes substituam por “mais amor”, esse bom-mocismo de classe média, é inútil, para dizer o mínimo. Pés no chão, espíritos atinados e atenção aos Direitos Humanos já nos bastam.

Deixando de lado tuítes beligerantes e punhos em riste de meninões criados a leite com pera, o que se nos apresenta de maneira incontornável é a insatisfação social. Como o demonstram os acontecimentos recentes da América Latina, o aumento das desigualdades e a frustração com a vida moderna, que não cumpriu suas promessas de bem-estar, têm servido de combustível a insurreições, protestos e golpes.

Não adianta nos compararmos aos franceses. Nunca termos universalizado as garantias políticas da modernidade ou massificado padrões médios de consumo capitalista, isso o compartilhamos com nossos hermanos.

Vou pincelar apenas dois pontos da nossa vida política e econômica recente para não extrapolar o limite de caracteres e a paciência do leitor.

Recentemente escancaramos uma realidade política que só com muito custo tem sido reconhecida. O lava-jatismo fez finalmente chegar ao topo da hierarquia social, ainda em um ambiente de institucionalidade democrática, a face autoritária e antiliberal do nosso sistema de justiça. Com compreensível espanto, figuras-chave da vida pública têm sido obrigadas a discutir questões elementares do Estado de Direito.

Que um policial não possa entrar em uma residência sem mandado judicial e que qualquer cidadão tenha o direito de reclamar por liberdade se considerar sua prisão ilegal são teses completamente alheias à realidade da população brasileira. Mas como elas, antes tão reles, foram colocadas no centro das preocupações de políticos e empresários influentes, estamos discutindo truísmos como a “Lei de Abuso de Autoridade”. Agora que juízes, procuradores e policiais investigam e prendem aqueles que se consideravam inatingíveis, faz-se mister uma lei que diga que é preciso cumprir a lei… Fica a pergunta se isso cabe a todos nós, os cidadãos.

icon-aspas "(...) pés no chão, espíritos atinados e atenção aos Direitos Humanos já nos fazem bem"

Em relação à economia, o assunto não é menos espinhoso, pois, tal como está colocado, faz voltarem os olhares aos funcionários públicos. Para estes, não está fácil respondermos à ideia de que as reformas propostas visam ao combate dos privilégios.

Em 2012, o IPEA publicou uma nota técnica apontando um coeficiente de concentração de renda no setor público de 0,73. Em 2012, a África do Sul, com um coeficiente de 0,63, era o pior país analisado pelo Banco Mundial nesse indicador.

É o Estado gerando desigualdade. Esse escândalo, no entanto, não beneficia o funcionalismo diretamente responsável pelos serviços essenciais à população. Professores, Agentes de Saúde e de Segurança não são aqueles que pedem lagostas em almoços oficiais.

Mas por nosso corporativismo e pela conveniência daqueles blindados por salários de miseráveis 24 mil reais, esse debate temos interditado. Tudo se passa como se qualquer proposta da equipe econômica do atual governo federal fosse inadmissível por princípio. No entanto, ações obtusas e incompetentes de quem diz nos comandar têm aberto uma excelente janela de oportunidades para informarmos tais propostas, realizando uma verdadeira e necessária crítica aos privilégios e às desigualdades.

Daniel Guerrini é professor do Departamento de Ciências Humanas e Sociais na Universidade Tecnológica Federal do Paraná – câmpus Londrina

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