Assim como milhões de pessoas, fiquei espantado com a decisão democrática do Reino Unido em sair da União Europeia. Em tese, para os britânicos é a garantia de uma autonomia econômica; na prática, em tempos de globalização, o bloco britânico literalmente tornou-se uma ilha. Acredito que os resquícios do protagonismo colonizador – e que restam impregnados no subconsciente de parcela significativa dos ingleses "puros", atingiu o ápice de sua frustração.

Agora, a eleição de Donald Trump revela uma insatisfação da população em relação ao protagonismo político e militar do Tio Sam, além de uma desolação com os rumos da economia interna americana. Inobstante as preocupações sociais propagadas em tom quase que messiânico, e mesmo não podendo ser responsabilizado pela crise financeira de 2008, o governo Obama não foi capaz de resolver os problemas de forma satisfatória. Assim, Trump invocou as convicções básicas da sociedade: a imagem do cowboy que sempre faz o certo e cuida apenas dos seus, alinhavada com os preceitos religiosos cristãos a qual seguem a maioria da população. E mais: com a auréola da afirmação de que não é político de formação... Deus Salve a América.

Ainda é importante observar que há uma tendência nos países do antigo Primeiro Mundo acerca de um conservadorismo decepcionado com o liberalismo e a chamada "esquerda" com vertente ao social. É o ressurgimento de uma direita sem uma identidade concreta, apenas com projeções que podem desencadear em governos totalitários.

No Brasil, é possível verificar um movimento semelhante em curso, em que grande parte população é mero espectadora das inúmeras disputas de polarização política, ética e moral. Diante da crise instaurada no país, as pessoas parecem anestesiadas ao não demonstrarem resignação ou desespero, mas apenas uma crescente frustração.
Somos um Estado Democrático de Direito e, por isso mesmo, as eleições asseguram a nossa representação política através dos eleitos. Mas em um ambiente como esse – em que o Judiciário está sendo obrigado a subtrair os poderes delegados ao Executivo e Legislativo para coibir práticas ilícitas praticadas por políticos, servidores públicos e a "máquina", qual garantia temos de que os candidatos com um discurso populista e infértil não seja eleito simplesmente por prometer aquilo que o povo quer, mas que por nossa precariedade não é possível instaurar, usurpando assim a expectativa latente dos eleitores apenas para criar um projeto de poder?

As decisões tomadas pelo Reino Unido e nos Estados Unidos são democráticas, o que legitimam as escolhas. Porém, o cenário econômico e político é assustador, especialmente porque antes havia apenas o "medo" de perda da soberania e protagonismo, e agora há a certeza de que milhares de ajustes serão necessários para adequar o mundo inteiro à nova realidade. E em um momento de crise institucional e econômica, o Brasil é exposto de forma dramática.

Se em 2008 a crise para o então presidente Lula era uma mera "marola", hoje sofremos as consequências daqueles eventos enquanto a maioria das economias globais começam a dar um sinal de recuperação. Agora, com as novidades no cenário político e econômico mundial, parece que estamos embrenhados em um cenário funesto.

Inobstante as escolhas feitas pelos britânicos e americanos, lembrando John Donne ao citar que "... nenhum homem é uma ilha", é necessário um comprometimento dos nossos representantes com a governança e sustentabilidade política e econômica do nosso país. Pois, além dos problemas que já temos, é quase que inequívoco que vamos enfrentar desafios ainda maiores para que o Brasil volte a crescer, e desta vez com a diminuição real da desigualdade social, possibilitando a criação de condições viáveis para não se expor perante as crises mundiais.

SEBASTIÃO SEIJI TOKUNAGA é advogado em Londrina

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