20 anos sem Sete Quedas
PUBLICAÇÃO
sábado, 12 de outubro de 2002
Vânia Moreira<br> Equipe da Folha 
Guaíra - No dia 13 de outubro de 1982, a Itaipu Binacional fechou suas comportas para formação do lago de Itaipu. Foi o início do sepultamento das Sete Quedas, um dos mais belos acidentes geográficos do Brasil e a ''menina dos olhos'' de Guaíra. A cidade não organizou nenhum manifesto para lembrar a data, que vai passar em branco. Como Sete Quedas não desapareceu ''da noite para o dia'', existem dúvidas sobre qual data deve ser considerada como marco do desaparecimento. As quedas foram inundando aos poucos e só submergiram totalmente cerca de 20 dias depois de fechadas as comportas da usina.
As visitas ao Parque Nacional de Sete Quedas foram proibidas a partir de 29 de setembro de 82 e as homenagens de despedida dos saltos começaram dois meses antes. Entre 2.500 a 3.000 ambientalistas de 25 entidades de todo o Brasil acamparam no Parque Nacional no final de julho e início de agosto para se despedir das Sete Quedas. No último dia, o movimento, batizado de ''Quarup Adeus Sete Quedas'', chegou a reunir 8 mil pessoas.
Em seu livro, ''Adeus Sete Quedas'', a ambientalista Tereza Urban, descreve o quarup como um marco do movimento ecologista no Brasil. Mesmo sem organização prévia e sistema de segurança precário, o encontro reuniu mais gente que o esperado e não teve incidentes. Segundo Tereza, foi a primeira vez que diversos grupos ambientalistas do país se reuniram para protestar contra uma agressão ao meio ambiente.
O funcionário público e ex-pescador João Lima Morais, 47 anos, o João Mandi, foi uma das últimas pessoas a percorrer as trilhas de Sete Quedas. Ele ignorou a proibição de acesso ao parque e fez questão de atravessar todas as pontes dos saltos, quando a água já alcançava seu pescoço. Uma façanha pequena para quem foi considerado herói durante a queda da ponte pênsil do Salto 19, no dia 17 de janeiro daquele ano. Ao ver dezenas de pessoas penduradas na ponte caída, João Mandi mergulhou no canal e salvou sozinho cinco homens e uma mulher. Ninguém se aventurava a tentar nadar naquele trecho. ''Eu sabia que podia ser arrastado pela correnteza, mas na hora só pensei em ajudar aquelas pessoas'', conta.
Prejudicada direta e irremediavelmente, Guaíra tentou de várias formas impedir o sacrifício das Sete Quedas. Em pleno regime militar, a Câmara de Vereadores chegou a conceder o título de persona non grata ao presidente da Itaipu Binacional, por causa de declarações à imprensa. Vinte anos depois, as lideranças políticas da cidade tentam minimizar a perda irreparável e estabelecer uma nova alavanca para o desenvolvimento econômico da cidade. Mas a população não se conforma com a perda.
A lembrança das cataratas que encantaram turistas de todo o Brasil e do mundo está em todos os lugares. É difícil encontrar uma repartição pública ou um estabelecimento comercial que não tenha pelo menos um quadro com a fotografia das Sete Quedas na parede. Os pescadores usam uma foto áerea marcada para localizar e pescar nas partes profundas.
Em 1999, o rebaixamento do Lago de Itaipu por causa da estiagem expôs parte das rochas na cabeceira dos saltos e parte das trilhas do antigo parque nacional. Foi o suficiente para centenas de turistas visitarem Guaíra e a população voltar a sonhar com o retorno das Sete Quedas. Mas a Itaipu Binacional descartou a possibilidade de reduzir permanentemente o volume de água do reservatório porque colocaria em risco o abastecimento de energia no Brasil e no Paraguai. Segundo a Itaipu, para o reaparecimento total das quedas, seria necessário baixar o nível do lago de 220 metros para 120 metros, o que inviabilizaria a produção de energia na hidrelétrica. Sete Quedas vão permanecer sepultadas.


