1997 e os dilemas do emprego
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 15 de janeiro de 1997
Jorge Mattoso 
Nós, brasileiros, sempre alternamos momentos de intenso pessimismo com, não menos intensos, momentos de otimismo. Quando chegam as festas de final do ano, o renovar de nossas esperanças favorece que alcancemos níveis inusitados de otimismo. Ainda recentemente, em pesquisa levada a cabo em 49 países, pelo Instituto Gallup, as nossas expectativas para 1997 foram as melhores do mundo. Nestes momentos de euforia, não raramente, as vozes de dissenso são consideradas como cassandras que terminariam por estragar a festa.
O dramático é que também nossas autoridades governamentais pareçam embaladas neste berço esplêndido. É como se não vivessemos neste mundo de incertezas do final do século 20. Os problemas que afetam a civilização industrial, tais como a desregulada dominância financeira, o crescimento econômico apenas medíocre, o desemprego massivo e a crescente desigualdade, parecem não nos dizer respeito ou, simplesmente, não teríamos o que fazer.
Ignora-se, assim, que o processo de globalização não atingiu a todos os países por igual e que as reações foram diferenciadas, indicando que o espaço para a diversidade de escolhas existe. Neste sentido, por um lado, desde 1984 os EUA apresentaram maior expansão relativa do seu produto nacional, enquanto outros países intensificaram ainda mais seu comércio externo, sobretudo as exportações, para contrabalançar o medíocre crescimento econômico interno.
Por outro lado, vários países reagiram defensivamente, em nome da produção e do emprego nacional, inclusive através de movimentos de massa, como recentemente ocorrido na França e Alemanha. Estas reações, ainda isoladas e frágeis, podem ganhar força, frente aos débeis resultados econômicos e aos extraordinários efeitos sociais negativos que ameaçam a democracia, e dar início à gestação de uma alternativa política para o futuro.
O processo de
globalização não
atingiu a todos os
países por igual
Alguns países mantiveram ou criaram diferentes instrumentos negociados de regulação, com resultados distintos do ponto de vista da competitividade e/ou das relações e condições de trabalho. O Japão e vários países asiáticos favoreceram relações de cooperação entre as empresas de um mesmo setor ou cadeia produtiva e destas com o sistema financeiro, articulados pelo Estado. Alavancando o investimento e o crescimento econômico, evitaram até o início dos anos 90 alguns dos efeitos que a externalização da produção e dos empregos ocasionou, sob formas mais predatórias de concorrência. Alguns países nórdicos, a Holanda, a Alemanha, a Áustria e agora mais recentemente a África do Sul, de Mandela, preservaram ou criaram negociações setoriais e nacionais, procurando orientar as condições da concorrência e do mercado de trabalho. A União Européia, contrariamente ao Mercosul, construiu mecanismos macroeconômicos, fundos públicos e níveis de articulação supranacional, visando evitar a harmonização por baixo e a maior degradação dos padrões da seguridade social e das condições e relações de trabalho.
O Brasil, ainda sob os efeitos benéficos da estabilização monetária, parece admitir que apenas a sua preservação seria suficiente. Sem crescimento econômico sustentado, navegando entre surtos de pessimismo e otimismo da sociedade e de stop and go da economia, as nossas autoridades da área de economia optaram por manter o caminho escolhido. Por isso, preserva-se a abertura comercial indiscriminada, o rompimento de políticas regulatórias democraticamente negociadas e a ampliação da deterioração das condições de trabalho (com a colaboração do Ministério do Trabalho), a ausência de políticas defensivas da produção e do emprego nacionais, no campo industrial e agrícola, e a permanência da sobrevalorização da moeda nacional e dos elevados juros.
Desta forma: a) acelera-se a desestruturação industrial pré-existente, sendo que mesmo o aumento da produção de setores importantes, como o automotor e eletrodomésticos, se realizou com uma enorme ampliação dos insumos importados, reduzindo o emprego e a geração de valor agregado unitário; b) há favorecimento da ampliação das importações e da estagnação das exportações, ampliando o déficit da balança comercial e reduzindo nossa participação no comércio mundial e c) criam-se dificuldades suplementares ao crescimento econômico, que é constrangido pelos desequilíbrios externos, pela dinâmica da balança comercial e de pagamentos. Mesmo a saudável ampliação do investimento direto do exterior ampliou apenas marginalmente a taxa de investimentos vis-à-vis o PIB, seja porque parte foi destinada à compra de ativos pré-existentes, seja porque ainda em quantidades pequenas frente às necessidades de investimento público e privado.
Desta forma, e dado os contrangimentos que estas mesmas políticas impõem, as taxas de crescimento previstas para o próximo ano apenas agravarão as já deterioradas condições do mercado de trabalho nacional: estagnação da geração de empregos formais e precarização das condições e relações de trabalho. Até quando?


