10 conceitos apontados como preferenciais - Gaudêncio Torquato
10 conceitos
apontados como
preferenciais
Gaudêncio Torquato
A tempestade de denúncias envolvendo parlamentares e governantes, cujo epicentro, hoje, é o prefeito Celso Pitta, de São Paulo, que está sendo ameaçado de impeachment, tem o condão de energizar a sociedade, levando-a a buscar novos conceitos, perfis e valores. A moldura antiga, com seus traços envelhecidos e costumes políticos condenados, está sendo substituída por um cenário onde novos matizes se superpõem às cores embotadas do passado. O primeiro atributo que a população quer ver colado no político é a honestidade, mas como se trata de um produto muito escasso e com alto grau de subjetividade (o que é ser honesto para uns, pode não ser para outros), outros valores, mais factíveis e próximos do mundo real, passam a figurar na escala das preferências.
Pelo menos dez conceitos podem ser apontados como preferenciais, a partir de uma interpretação mais aguda das pesquisas de opinião feitas pelos institutos. Vamos a eles. Tem chamado a atenção a escalada das mulheres na política, principalmente o favoritismo de algumas candidatas à prefeitura de capitais, a partir de São Paulo, onde Marta Suplicy e Luiza Erundina lideram a corrida. A ascensão da mulher na política pode ser interpretada como um contraponto à mesmice do homem, que, regra geral, tem sido o pivô dos escândalos e corrupção. A população escolhe a mulher e, com ela, o sentido de organização que sua identidade encarna. E essa organização, como conceito, se estende ao controle apurado do orçamento doméstico. Se ela sabe, como ninguém, controlar as compras da casa, pode ser uma boa administradora das verbas do povo. É um dos ganchos psicológicos que explicam a escolha do eleitor.
O segundo grande conceito é o da autoridade do pai. A bagunça generalizada que toma conta de alguns setores da vida nacional, a violência desmesurada, a deterioração de valores, princípios e normas (leis que não são cumpridas, ordens que não são atendidas) sugerem um basta. Os cidadãos querem um ordenamento, uma disciplina, o atendimento de seus direitos. E essa demanda sugere a ascensão do perfil da autoridade, capaz de ditar as regras, eliminar as incertezas, por ordem na casa. O pai, com autoridade, provedor da casa, que protege a família, é um ícone de admiração. Mas não se deve confundir autoridade com autoritarismo, com imposição forçada.
O terceiro atributo desejado é o da experiência bem sucedida do bom empresário, que se contrapõe às catástrofes que têm atacado muitas administrações públicas. O estilo empresarial funciona como contraponto à lerdeza e desfuncionalidade dos serviços públicos. Por isso, a novidade do outsider também está sendo considerada como atração. Os novatos na política despertarão interesse por sua postura não comprometida, asséptica, e a idéia de inovação que simbolizam. É mais um valor a se inserir na nova padronagem.
As intempéries e o calor da crise têm elevado a temperatura política, fazendo emergir figuras tempestuosas e factóides. A população parece cansada dos velhos cacoetes e da verborragia política. O ambiente, por isso, é acolhedor para o equilíbrio e bom senso, esse atributo dos psicólogos, que transmitem segurança aos pacientes. A ruindade, perversidade e o egocentrismo têm feito escola. O contraponto é a bondade, a caridade, dons comuns no missionário, cuja fisionomia faz brilhar a virtude do desapego às coisas materiais. O equilíbrio e a bondade integram seguramente a nova paisagem desenhada pela sociedade.
Nada de enrolação, nada de embromação - é o que o povo exige. Por isso, a linguagem direta do bom vendedor passa a ser outro valor. Olho no olho, sinceridade, discurso aberto, claro. A isso se soma, ainda, a jovialidade do esportista. Afinal de contas, a velharia não anda, não abre oportunidades. A jovialidade embute os valores-força da inovação, dos desafios, dos novos compromissos. Para fazer tudo isso, é preciso ter coragem, a garra do work-aholic, o trabalhador incansável, capaz de trabalhar 24 horas pela comunidade. Preguiçoso não tem futuro. E, por último, deseja-se sentir a mística do religioso, a aura do iluminado, com seu brilho carismático. Mas esse é um atributo muito raro nesses tempos de apego à matéria. E carisma não é dom que se vê em qualquer esquina.
A soma de alguns desses conceitos e elementos pode proporcionar aos políticos e governantes férias no paraíso.
- Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da USP





