1ª Primasol, um gesto solidário - Maria Lucia Victor Barbosa
1ª Primasol, um gesto solidário
Maria Lucia Victor Barbosa
Neste sábado Londrina vai receber uma luz que não é apenas do sol. Uma fonte de calor que vem da energia da solidariedade humana. É que acontece no Parque Governador Ney Braga a 1ª Primasol Festa da Primavera Solidária, nascida da determinação e do esforço da diretoria feminina da Sociedade Rural do Paraná liderada por Maria Edith Galli, e apoiada incondicionalmente pelo marido desta, o presidente da entidade Francisco Luiz Prando Galli, e todos os diretores.
A vasta programação do evento tem por objetivo divulgar e arrecadar fundos para as mais de 80 organizações beneficentes da cidade, nas quais, abnegados anjos anônimos cuidam de aproximadamente 11 mil pessoas envolvidas diretamente, e de 30 mil indiretamente. Essas criaturas do infortúnio englobam menores carentes, doentes crônicos, dependentes químicos, portadores de deficiências, idosos, moradores de rua. E é preciso lembrar, que sem estas organizações onde se pratica o amor universal, os deserdados da vida padeceriam mais dissabores, e se perderiam ainda mais nos descaminhos interpostos à sua existência.
Mas se a vontade de auxiliar o próximo é imensa nas entidades beneficentes, por outro lado elas padecem de enormes dificuldades materiais, muitas das quais poderiam ser minoradas se não fosse o egoísmo e o descaso tanto do setor público como do particular. E neste sentido, Maria Edith dá, juntamente com sua equipe, um exemplo fantástico de como é possível, a partir do esforço e da capacidade de cada um, tentar minorar os descalabros desse mundo através não de discursos pomposos ou de belas e vagas teorias, mas de gestos e ações reais. E é digno de louvor o fato de que, mais que arrecadar fundos, algo de efeito caridoso e emergencial, essas mulheres notáveis tenham inventado uma Exposição da Solidariedade para também divulgar a generosidade praticada nas organizações assistenciais de Londrina.
A ênfase que estou dando ao evento advém da minha vontade de nesse instante mostrar algo de positivo. Mesmo porque, é provável que muitos como eu se sintam cansados de só receber notícias sobre desgraças. Afinal, há um maniqueísmo radical da imprensa a partir do qual as informações apenas giram em torno de calamidades, tragédias e violência. É como se a vida não tivesse outra alternativa a não ser o sofrimento. Liga-se a televisão e alguém anuncia: O mundo hoje: um furacão desabrigou e matou milhares de pessoas. Naufraga navio e todos que nele estavam morrem afogados. Sequestro de avião desorienta piloto e a aeronave com 200 passageiros se espatifa no solo. E quando se chega ao Brasil: Bala perdida mata criança. Homem que posteriormente se comprovou ser inocente, é chacinado. Aumentam a fome e o desemprego, a seca e a chuva, os índices de criminalidade e a roubalheira pública.
Muitas dessas coisas acontecem de fato. Outras são inverdades ou exageros. Mas tem que haver e há brechas para a beleza, para a bondade e para alegria. Há possibilidade de que raios de esperança atravessem o denso nevoeiro da infelicidade humana para se transformarem em realizações altruístas, que redimem o homem de sua brutalidade animal e o fazem reassumir sua dignidade essencial. Só que esses raios de esperança não são noticiados, o que traz o desalento, a insegurança, o medo do futuro. Um futuro, que os homens não percebem, é feito por eles mesmos.
Em meio a esse circo de horrores, mãos à obra, parece dizer Maria Edith com seu bom humor contagiante. Façamos alguma coisa! Uma exposição de bondade, por exemplo. Criemos barracas para vender ternura e organizemos um leilão das raças da alegria: a alegria da doação, a alegria da generosidade, a alegria da participação. E assim, pela primeira vez, os portões do Parque Governador Ney Braga se abrem de par em par para uma inusitada feira mantendo a inscrição que os encima: Paz na terra aos homens de boa vontade.
Essa boa vontade anima Francisco Galli, que propiciou o necessário para que a 1ª Primasol tivesse êxito. Naturalmente, ele e os demais diretores da Sociedade Rural do Paraná, já têm nas suas mentes e nos seus esforços a organização da próxima Exposição agropecuária e Industrial de Londrina, a quadragésima da série, a Exposição do ano 2000, dos 500 anos do descobrimento do Brasil. Uma exposição que pela diversidade e qualidade das raças bovinas que apresenta pode ser considerada a mais importante do País. No Paraná, o evento dinamiza o comércio, revitalizando assim a economia; demonstra o potencial de Londrina e eleva seu nome em termos, inclusive, internacionais; oferece empregos temporários, enseja oportunidades de ganho para todos, desde o humilde vendedor de cachorro-quente até o criador de gado; prodigaliza ao povo lazer e entretenimento.
A Exposição Agropecuária e Industrial de Londrina possui, portanto, efeitos extraordinários em termos econômicos, mas agora, através da iniciativa e dedicação do casal Galli, uma outra exposição, de diversa natureza, de objetivo diferenciado, talvez tenha vindo para ficar, pois seu nome é 1ª Primasol. E se esta, evidentemente, não pode se comparar com a tradicional em termos de força e esplendor, não subestimemos sua grandeza. Ela possui a grandiosidade humanitária que pode ser traduzida numa palavra bíblica: Nem só de pão vive o homem. A 1ª Primasol traduz isso pois não visa lucro para seus promotores, mas sim a gratificação de auxiliar os que mais necessitam. E esse esforço concreto, feito de forma independente do Poder Público, é bem diverso da demagogia que através, por exemplo, da retórica vazia de dois políticos, Lula e Antônio Carlos Magalhães, opostos aparentemente pela ideologia e iguais no populismo, discutem num hotel de luxo a respeito de impostos para acabar com a pobreza. Impostos, que como se sabe, jamais beneficiarão os pobres.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária em Londrina
E- mail: [email protected]





