- ESPAÇO ABERTO
Liberdade sem limites
O máximo de liberdade que o mundo ocidental proporcionou a seus cidadãos foi ofertado pelo Estado mínimo, o que não significa ausência de Estado e ausência de limites sobre a liberdade social e econômica. Desde o alvorecer dos tempos, ela, a liberdade, é ambicionada, mas sempre se ajustando pela submissão de uns para que outros pudessem ser genuinamente livres. Após milênios, o instituto do Estado moderno veio tentar equalizar as relações procurando um sentido de igualdade, ainda que imperfeita. Seria possível encontrá-la, geral e irrestrita, estando o cidadão condicionado às vicissitudes diárias da luta pela subsistência? Ainda que aspiremos a isso, as relações de poder, indeléveis no convívio diário, perseveram em subjugar o homem seja pelos ferros de outrora, seja pela doutrinação sob as mais variadas ideologias. Inescapáveis, essas relações que se valem há muito tempo, desde a força física à intelectual mediante os subterfúgios da política marqueteira ou mesmo da mais inocente propaganda na TV, são de nossa natureza e incompatíveis com a liberdade plena.
Contudo, acima do arbítrio das relações de poder, há outra poda que se dá pelo limite, que quando equilibrado harmoniza o conteúdo das relações e possibilita a convivência, dando a cada qual o que lhe é de direito, produzindo o bom gosto, o bom senso e paz social. Não é uma invenção autoritária para tolher, mas uma convenção que aprimora a relação entre iguais que se respeitam. Em um mundo às avessas, hoje em dia exacerbado, descobrimos que todas as instituições são desprovidas da verdade, o que esmaece bastante os limites. Todavia, a liberdade sem limites só a temos quando desprezamos o outro e, portanto quão adequado seria não desejássemos ser, para o bem da própria civilização que almejamos, tão livres quanto gostaríamos. Enquanto houver o outro, a prudência em nos policiar pode, quem sabe, levar-nos ao encontro de uma liberdade inusitada e absoluta de nós mesmos.
DAVSON MARCELINO SILVA é administrador em Bandeirantes
O direito à nudez
Assistir a espetáculos de dança me ensinou sobre o corpo. Com eles, aprendi que a potência e a explosão do corpo no palco dinamitam a mesquinharia das dicotomias banais, de corpos bonitos/feios, obesos/magros, adequados/inadequados; no palco, todo o corpo é estupendo. Também compreendi que o corpo pode, absolutamente, qualquer coisa, se assim o desejar; sob as luzes, ele é invencível. Consolidei ainda a certeza de que a nudez não é um convite ao coito, mas uma entrega voluntária do artista ao público daquilo que ele tem de mais íntimo e vulnerável sua pele sem disfarces, puro movimento.
Faço absoluta questão de que os meus filhos assistam a apresentações de dança em geral, incluindo as de nudez. Considero o acesso a tais produções um direito fundamental e inalienável do indivíduo em formação. Ao espetáculo, minhas crianças oferecem o olhar cândido de quem vê o corpo nu como alimento, fonte de leite e calor. Em contrapartida, o espetáculo expõe a eles o corpo como planejamento, técnica, narrativa e descrição dos estados dalma. Desse intercâmbio, nasce algo tão bonito que também lembra a nutrição: o deleite.
Quero criar uma filha que construa alegria e prazer a partir de seu corpo, sem ser oprimida pelos padrões hegemônicos de beleza ou pela fragilidade física de seu gênero. Que ela jamais sinta medo simplesmente por ter um corpo. Igualmente, quero criar um filho que construa alegria e prazer a partir de seu corpo, sem nunca usá-lo para subjugar quem quer que seja, muito pelo contrário. Que ele saiba ter o corpo de um homem, não o de um macho. Que meus filhos celebrem seus corpos como os espaços sagrados que são; que zelem por sua saúde; que compartilhem aromas com seus futuros parceiros, de maneira adulta e consensual, porque o corpo deve ser a morada do amor, tanto do amor próprio quanto do destinado ao outro.
E, sim, a arte me ajuda nesta missão, porque ela forma pessoas críticas, capazes não só de existir, mas também de ser. A arte e a educação, juntas, representam a vitória da humanidade sobre a barbárie, elas nos ensinam todos os dias que o medo do corpo é sempre o medo da liberdade.
CLAUDIA FREITAS é professora universitária em Londrina
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