- ESPAÇO ABERTO - Mais (e melhores) médicos para o Brasil
PUBLICAÇÃO
sábado, 20 de julho de 2013
Carlos Renato dAvila 
A falta de médicos no interior e nas periferias dos grandes centros não será resolvida com uma canetada. Regulamentações como a Medida Provisória assinada pela presidente Dilma Rousseff devem ser precedidas de discussões e de planejamento com entidades representativas das áreas de saúde, educação e dos diversos níveis gestores do Sistema Único de Saúde (SUS).
O Brasil já provou ter longa experiência na organização dos serviços do SUS e não seria difícil arregimentar toda a sociedade civil, o Estado e os demais interessados na resolução da questão.
Em tese, sou favorável que médicos recém-formados prestem serviços à rede pública de saúde, desde que oriundos de universidades públicas. Seria uma forma digna de retribuição dos elevados custos da formação médica. Como estamos num país democrático, a participação das faculdades particulares neste programa precisa ser por adesão. E resta a dúvida da constitucionalidade da obrigação da prestação de serviços.
Acredito ainda que deva ser mantida a duração de seis anos de graduação, com o médico recebendo o seu diploma e o CRM definitivo ao término do curso.
Para que o programa de mais médicos nos municípios menores e mais pobres funcione adequadamente, também recomendo o seguinte: localidades com 5 mil a 10 mil habitantes devem possuir um laboratório que realize um mínimo de exames básicos para auxílio diagnóstico; e aquelas com mais de 10 mil o laboratório e um aparelho de raios-X com resolutividade para ossos, abdômen e tórax. Além disso, é fundamental existir um sistema de referência hierarquizado e regionalizado conforme graus de complexidade, com ambulância exclusivamente para tais necessidades.
É preciso, ainda, que o município forneça moradia para o médico e auxílio financeiro para alimentação razoável. O salário oferecido deve ser compatível com os melhores do mercado.
Após o término desta prestação de serviços, o médico teria a oportunidade de fazer um ano de residência em Medicina Comunitária, se assim quisesse, ou optaria por especialização, disputando as vagas existentes com um crédito proporcional ao tempo de serviço na atenção básica (um a dois anos). Aí sim, ingressaria no mercado de trabalho como todo trabalhador. Sou contrário à criação de mais 11 mil vagas em faculdades de Medicina sem que existam hospitais de ensino nos próprios municípios onde estão as escolas.
Mas nada disso irá funcionar se não houver uma grande mudança na grade curricular dos cursos, alterando o foco da formação médica e priorizando a atuação na atenção básica. O recém-formado precisa estar capacitado para atender com segurança as doenças prevalentes na população de crianças, adultos, gestantes, etc. Hoje, os médicos são preparados para trabalhar com uma Medicina de primeiro mundo, exercida nos grandes centros urbanos.
Os jovens médicos são treinados para solicitarem exames na sua maioria desnecessários, que não substituem a velha anamnese (história clínica) e um exame físico bem feito. Isso, aliado a um conhecimento médico mínimo, é que possibilita um diagnóstico presumido mais acertado, sem necessidade de testes complementares, que encarecem o atendimento pelo SUS. Exames laboratoriais são necessários em casos de extrema dúvida diagnóstica ou para controle de doenças preexistentes; não para amenizar a insegurança do médico.
A educação médica deve voltar-se para preparar profissionais que olhem para os rostos dos pacientes, que conversem e que ponham as suas mãos neles, como nós, formados há muito tempo, aprendemos com os velhos mestres da Medicina.
CARLOS RENATO DAVILA
é médico pediatra em Curitiba
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