Leonor Inácia Madureira Macur, 39 anos, sonha em cursar Direito em Jacarezinho e seguir os passos do pai, que foi oficial de Justiça. Leonor é revendedora de roupas e tem quatro filhos. O sonho de fazer faculdade existe desde criança, porém, somente agora é que obteve meios de tentar realizá-lo. O primeiro passo para ingressar na faculdade foi se matricular em um curso pré-vestibular gratuito. Sem recursos para se matricular em curso pago, o cursinho manteve o sonho de ingressar em uma faculdade pública.

Para aumentar as oportunidades de pessoas como Leonor, começam a surgir na região cursinhos pré-vestibulares gratuitos, que contam com o apoio de voluntários e acadêmicos e têm o objetivo de preparar as pessoas para o vestibular e ingressar em faculdades públicas. Em Jacarezinho foi criada a Associação de Ensino Pré-Direito, que conta com o apoio de 13 voluntários e já formou, na sua primeira turma, 114 alunos. Em Ibaiti existe o Grupo de Estudos Direcionados (GED), que conta com os serviços de sete professores e tem atualmente 15 alunos.

A Associação de Ensino Pré-Direito, criada em agosto deste ano, reúne acadêmicos da Faculdade de Direito e Filosofia. Segundo Laurindo Possebom Neto, um dos coordenadores do projeto, a seleção dos estudantes foi feita por meio de uma entrevista, a qual comprovou judicialmente as condições financeiras dos alunos, dando preferência aos menos favorecidos. Possebom Neto afirmou que a procura pelo curso foi grande. ''Participaram até alunos de Ourinhos (SP)'', declarou, admirado com o sucesso do projeto, que terá continuidade no ano que vem.

A admissão da próxima turma não dependerá somente de entrevistas. Os inscritos terão que fazer também uma espécie de ''vestibulinho'' para serem admitidos. O coordenador explica que isso deve acontecer se a grande procura pelo curso se repetir. Para frequentar as aulas, os alunos precisam levar apenas um quilo de alimento não-perecível que, posteriormente, será utilizado pelos próprios estudantes em café da manhã e almoço (aos mais carentes).

Apesar da importância desse projeto, Possebom Neto afirma que ainda há muito o que fazer. Segundo ele, as dificuldades para levá-lo adiante são grandes, principalmente quando não se tem o apoio de entidades, sejam elas públicas ou privadas. ''Precisamos de toda ajuda possível. Nossa vontade é oferecer material para todos os alunos e nossa grande meta é que eles consigam ingressar na Faculdade de Direito''.

Mesmo com todas as dificuldades, a associação pôde comemorar uma vitória, que veio com a conquista de um espaço para ministrar aulas na Faculdade Estadual de Direito do Norte Pioneiro, em Jacarezinho. Inicialmente, as aulas aconteciam no Colégio Rui Barbosa.

É importante ressaltar, ainda, a diversidade dos participantes do curso. Possebom Neto conta que frequentam as aulas desde pessoas que pararam de estudar há algum tempo, até cortadores de cana e empregadas domésticas. Isso comprova, portanto, o interesse das pessoas em cursar uma faculdade interesse este que caminha, inúmeras vezes, com dificuldades financeiras.

Leonor, a revendora que sonha em se tornar advogada, participou do curso pré-vestibular da associação e ficou muito satisfeita com o que aprendeu. ''Esse curso poderia ter sido criado há muito mais tempo, até mesmo pelos governantes. Acho que falta um pouco de interesse da parte deles, já que esse é um curso totalmente voltado a pessoas carentes. Os organizadores deveriam receber mais incentivos'', afirmou Leonor, que já fez vestibular na Faculdade de Direito e está aguardando o resultado para o próximo dia 22.

Um dos professores e voluntários do projeto, André Luiz Moraes, é acadêmico na Faculdade de Filosofia (Faefija). Ele diz que está confiante na continuidade do curso no próximo ano, porém, ressalta a importância de adquirir incentivos para o projeto. ''Não existem incentivos, o que torna tudo mais difícil'', lamenta Moraes.

mockup