Vivo ou morto?
Onde já se viu!?!?!? Fui assistir a matança da minha boiada, que era especial de boa, e ela não rendeu o que deveria. Aquele frigorífico tirou o couro da boiada e o meu, também. Nunca mais vou matar boi com fulano de tal. Fui roubado! Este é um desabafo comum no meio pecuário. Em poucas horas, facas afiadas, que exageram na limpeza da carcaça; balanças e balanceiros bem treinados, ficam com o lucro de anos de trabalho. Não é fácil acompanhar uma matança e ver que está sendo tapeado, lesado. A revolta e a frustração são tamanhas, que ao passar a mão no romaneio a única vontade que dá é de picá-lo e jogá-lo na cara de quem quer que seja. Mas de que adiantaria? O fato já estava consumado.
Então o que fazer para evitar que na próxima partida de boi gordo não se tenha desgaste emocional, prejuízo financeiro e perda de tempo? Vender no peso vivo. Afinal, prá que serve a balança na propriedade? O invernista sabe o que tem nas mãos. Uma boiada pesada e gorda, só tem que render. Então, pese os bois e defina o rendimento. Rendeu além do combinado? Ótimo! Sorte e lucro para a indústria. É preferível agir desta forma, consciente de que está proporcionando vantagem, do que ser ludibriado. Agora, se você tem plena confiança no frigorífico, tanto que sequer vai assistir a matança, é outro departamento. Só que casos assim, são raros.
Já no abate de vacas, convenhamos, os frigoríficos têm razão em não fechar negócio no peso vivo. Podem até não ter bezerros na barriga, o que é difícil, mas são buchudas e a limpeza na carcaça é maior. Vacas têm quebra bastante significativa no gancho. Algo entre 30-40 quilos, em alguns casos até acima disto.
Novilhas, desde que não tenham sido entouradas e dependendo da gordura e peso peso não significa que o animal está gordo podem até render. Os frigoríficos sabem disto. Mas como confiar que naquele lote não tinha touro? Na dúvida, peso morto. Neste ponto o invernista que tem certeza que suas novilhas estão vazias, não tem o que temer. Desde que o frigorífico seja de confiança. Caso contrário, peso vivo, com seu respectivo rendimento. Quer, quer. Não quer, tem quem quer. Afinal, você não é obrigado a confiar na balança do frigorífico.
A relação pecuaristas-frigoríficos, sob diversos pontos de vista, sempre foi muito conflitante. Um relacionamento ambíguo, no qual há dependência mútua. Quem sabe a partir do momento em que prevalecer a compra no peso vivo, com seus reais descontos e rendimentos, haverá um melhor relacionamento, mais amistoso, entre estes dois setores. Até lá continuará esta queda de braços, feita de muitas acusações entre as partes. O que é ruim para ambas.
Dinamismo É cada vez maior o número de investidores que estão migrando para a pecuária. São profissionais liberais, industriais, comerciantes, autônomos etc., injetando dinheiro, que antes tinha outro endereço: mercado imobiliário, bolsa, ações...
E por que este pessoal está se sentindo atraído pela atividade? Porque poucos setores são tão dinâmicos e não apresentam a mesma taxa de liquidez e a segurança que a pecuária oferece. Gado é cheque visado. Quem tem gado não perde oportunidade. Se amanhã, por exemplo, aparecer um negócio daqueles, que não se pode perder de jeito nenhum, mas você está sem dinheiro, e o prazo é curto, não tem problema: é só apartar o número necessário de animais e vender dentro do prazo determinado. Pode ser à vista, com uma semana, dez dias... Com ele você pode se programar com tranquilidade. É aceito facilmente numa negociação; o que não ocorre, no mais das vezes, com uma casa, um apartamento, um carro... que além de não ter liquidez imediata, perdem valor. Com gado não há este risco. Por pior que tenha sido comprado, ele vai pro pasto, cresce e engorda.
A atividade pecuária tem ainda a seu favor o dom de colocar o homem em contato direto com a natureza, o que é extremamente saudável. Na lida do campo se esquece de tudo, se renova. A pecuária é apaixonante, prazerosa. Talvez isto explique a grande procura por terras e arrendamentos, uma realidade que está sendo verificada em todas as regiões pecuárias do Brasil.
Arão Dias Neto é leitor da Folha Norte Pioneiro





