Joaquim Távora - "É o cinema", responde Irineu Renato Moreno, ao visitante interessado em saber o que está por trás da cortina no pavimento térreo onde ele aponta, também, para o estúdio da emissora de rádio cuja autorização está requerendo. Impulsionado pela informação, o curioso faz correr a cortina, dá um passo e já está numa sala com 100 autênticas poltronas do cinema que funcionou ali até 1982, quando não resistiu à crise econômica (início da década perdida) e fechou.
Os cinemas já vinham perdendo público há algum tempo com a expansão da TV. Irineu era o dono e, agora, anuncia a reabertura, sem a necessidade daqueles grandes projetores a carvão.
Prolongando-se a conversa, fica claro que a expressão cinema se restringe ao ambiente característico, que aguça a imaginação; não haverá a projeção de filmes propriamente, mas um supertelão para exibir transmissões de TV, gravações em DVD e outros meios digitais. O objetivo é oferecer um espaço apropriado a conferências, reuniões e apresentações artísticas (há o palco), que instituições e outros interessados poderão alugar, esclarece Irineu.
Enquanto o diretor James Cameron, recordista de bilheteria no mundo (Titanic e Avatar), afirma que hoje em dia podemos tudo; o limite não é mais a técnica, é a imaginação, Joaquim Távora não terá o cinema antigo nem o atualizado com projetores sofisticados que dispensam carvão e usam lâmpadas específicas de alto custo. Quase toda a produção cinematográfica ainda vai para o celuloide, ou película, que permite qualidade superior ao vídeo digital, algo que tem paralelo no disco de vinil (em termos de música) comparado ao CD, atestam especialistas.
A projeção digital, com a vantagem de os cinemas receberem por satélite a imagem cinematográfica posta num servidor, é exceção condicionada também a um outro motivo: facilita tremendamente a pirataria .
Independente das limitações, uma coisa é certa: o prédio de Irineu Renato Moreno é histórico. Situado na Avenida Souza Naves, próximo à estação ferroviária; convenientemente à época da construção, já que os filmes chegavam de trem. Se a estaçãozinha de madeira, marco da expansão urbana por 90 anos, desapareceu numa imensa fogueira há um mês, o edifício do cinema está firme.
"Esse aqui foi construído em 1947 pelo Luís Santana e eu o comprei em 1982", relata Irineu, chamando a atenção para a solidez: "não tem uma trinca".

Nomes
Aos 80 anos, serventuário de Justiça aposentado, ex-transportador rodoviário, Irineu não sabe ao certo se foi nos últimos anos 40 ou na década de 50 que João Cordasco instalou o cinema. Sucederam-se os proprietários, entre os quais Júlio José Moreno (pai de Irineu), que mudou o cinema para outro prédio na avenida. "Lá eu o instalei", diz Irineu, referindo-se ao edifício do pai, que era o maior armazém de secos e molhados. Mas não recorda em que década, "preciso procurar a papelada..." Revendido, o cinema retornou ao primeiro prédio e já pertencia a Nicanor Ferreira de Melo ao ser adquirido por Irineu.
Sem projeção de filmes, o espaço da plateia foi dividido em dois, destinando-se a parte esvaziada de poltronas a outras finalidades, entre as quais clube de danças e lanchonete; o tema da decoração permaneceu vinculado ao cinema, com posters de Charlie Chaplin e cartazes de filmes de Silvester Stallone e outros.
O ambiente, agora entulhado, logo estará em ordem, promete o empreendedor, mostrando as reformas. As poltronas estão perfeitamente alinhadas com espaço entre as fileiras suficiente para o espectadores esticarem as pernas e facilitar a passagem. O som funciona e Irineu põe um DVD no projetor, apaga as luzes e liga: a tela de 3m X 6m é preenchida por uma dupla do gênero breganejo.
Conforme Irineu, entre os nomes que o cinema teve, Avenida, Para todos e Vitória, escolheu Vitória para associar às iniciais do próprio nome e identificar a nova fase: Irmo Vitória. Será a marca, também, da emissora de rádio comercial que pretende instalar, já com o pedido de autorização em trâmite. Atualmente, Joaquim Távora tem a Rádio Comunitária Morada do Vento.

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