Jacarezinho - Se alguém entrar na Catedral de Jacarezinho para conhecer o que a Paróquia tem de arte sacra, vai sofrer uma grande decepção. O templo tem um acervo muito rico, que inclusive é tombado pelo Patrimônio Artístico e Cultural do Paraná, mas o que predomina, na verdade, não é a arte sacra, mas a arte profana.
A diferença começa no hall de entrada da igreja onde, no teto, estão os 12 símbolos do zodíaco. Ainda na entrada, ao lado direito, há um painel com vários símbolos católicos ao centro, como o alfa, o ômega, a vela e a pia batismal, mas há uma tonalidade avermelhada como se estivesse invadindo a obra. O curioso é que o artista desenhou duas serpentes, uma de cada lado, que parecem querer dominar a cena. As serpentes, que são a representação bíblica do demônio, aparecem de forma tão sutil que só podem ser notadas pelos observadores mais atentos. Segundo alguns estudiosos, o artista quis dizer, com esta pintura, que o cristianismo estaria fadado ao fracasso.
Já dentro da igreja, de cada lado, bem no alto, há seis grandes painéis com pessoas em tamanho natural. São desenhos feitos de cidadãos comuns que viveram em Jacarezinho na época das pinturas, entre 1954 e 1957. Nestes painéis, as pessoas aparecem com as pernas e os braços maiores do que o normal. O padre Alex de Oliveira Nogueira, vigário da Catedral de Jacarezinho, diz que o artista possivelmente quis dizer que o homem não precisa de Deus para sobreviver.
A pintura no teto do altar, em forma de concha, chama a atenção pelo excesso de detalhes. O painel retrata a promulgação do dogma da assunção de Nossa Senhora ao céu. A solenidade reúne cerca de 200 moradores de Jacarezinho. Um dos personagens que está em primeiro plano com uma chave nas mãos é o prefeito da cidade. No desenho também aparecem o bispo, o papa Pio XII, que promulgou o dogma, a imagem de São Sebastião sendo levada em um andor, algumas irmãs religiosas e outras mulheres que eram prostitutas na época.
Toda obra no interior da catedral foi produzida pelo artista Eugênio de Proença Sigaud, convidado para fazer as pinturas por seu irmão, dom Geraldo de Proença Sigaud, bispo de Jacarezinho entre 1946 e 1960. Ao mesmo tempo que pintava a catedral, o artista fez algumas pinturas também em uma casa de prostituição da cidade, obra que foi destruída com o imóvel.
Ninguém duvida da capacidade do artista, que tinha um rosário de adjetivos que a Igreja abomina: era ateu convicto, comunista e maçom. Tanto que o símbolo da maçonaria aparece em vários momentos. A tonalidade acentuada de vermelho também seria um referencial à tendência ideológica do artista.
A contradição, no entanto, não está apenas em pintar um lugar sagrado com arte profana, mas também no posicionamento ideológico dos dois irmãos. Dom Geraldo era tido como extremamente conservador, era crítico do chamado clero progressista, contra a reforma agrária e foi um fundadores da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP).
O artista ainda fez algumas pinturas, em espaço menores, de cenas onde se destacam alguns profetas do Antigo Testamento. E neste aspecto também há algo curioso: é impressionante como o artista, mesmo sendo ateu, demonstra profundo conhecimento do conteúdo bíblico em sua obra.
Para o padre Alex existe a possibilidade de que dom Geraldo tenha convidado seu irmão em uma tentativa de convertê-lo ao catolicismo. Outra hipótese é que dom Geraldo queria que a catedral fosse reconhecida por seu acervo artístico, e por isso teria chamado o irmão, que é conhecido internacionalmente.
O fato é que dom Geraldo não conseguiu seu objetivo. Há a informação de que os dois teriam se desentendido quando o artista iria pintar o último painel em uma parede na paróquia. Revoltado, o artista, que estava em um andaime, jogou toda a tinta sobre o irmão, foi embora, e a parede permanece em branco até hoje.
O padre diz que a sociedade de Jacarezinho sempre conviveu em harmonia com a arte profana, seja pela beleza da arte ou pela dificuldade em reconhecer suas peculiaridades. "O povo não vê a obra com os olhos do artista. O povo vê a beleza da obra, sem a consciência do que está implicitamente representado, o que para a comunidade, não é relevante", afirma.

Imagem ilustrativa da imagem Uma catedral onde predomina a arte profana



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