A apresentação da peça ‘‘Vidas Secas’’, Cia. Farol de Teatro e Dança, de Londrina, no início de junho, permitiu um reencontro entre o grupo, que teve início em Santo Antônio da Platina, e o público do Norte Pioneiro. A Cia. Farol teve início em 1999, quando um grupo de atores se desligou do Conjunto Amadores de Teatro (CAT), de Jacarezinho, e iniciou um trabalho paralelo.
Atualmente, o grupo, que se transferiu para Londrina e mantém em seu elenco quatro atores da região, elogia a recepção londrinense ao trabalho artístico, mas não deixa de levar para o palco a experiência conquistada durante as apresentações para o público do Norte Pioneiro.
Após o desligamento dos atores do CAT, a Cia. Farol, na época com 13 pessoas no elenco, montou a peça ‘‘Vestido de Noiva’’, de Nelson Rodrigues, que recebeu o prêmio revelação durante o Festival de Teatro Amador de Ourinhos (SP), em 2000, e durante cinco meses foi apresentada em várias cidades da região. Em seguida o grupo montou ‘‘Teoria da Loucura’’ que, segundo os atores, questionava a fronteira entre a sanidade e a loucura.
O ator Flávio Martim, de Santo Antônio da Platina, diz que o texto foi elaborado a partir de laboratórios realizados pelos atores com portadores de deficiências mentais. ‘‘Retratamos as loucuras do cotidiano e revelamos as pequenas loucuras que cometemos diariamente’’ A pesquisa da peça demorou cerca de dois meses e envolveu todo o elenco.
‘‘Teoria da Loucura’’ permitiu os primeiros contatos do grupo com o palco londrinense. Martim comenta que a Cia. realizou algumas apresentações na cidade e a aceitação do público foi intensa. Em seguida vieram mais convites e o sucesso de público e crítica carimbaram o passaporte do grupo para o novo cenário. A peça chegou a ser assistida por 700 pessoas e recebeu vários elogios da crítica especializada.
Martim explica que a transferência foi justificada por uma série de coincidências. ‘‘Alguns atores queriam se transferir para Londrina e outros foram aprovados no curso de Artes Cênicas da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Por isso, decidimos transferir nossa atividade’’, comentou. Ele afirma que o público e a comunidade artística de Londrina assimilaram bem o novo grupo. ‘‘Fomos acolhidos e, apesar do período de transição, conseguimos nosso lugar’’.
O grupo é dirigido por Patrícia Venâncio, uma das fundadoras do grupo original que se desligou do CAT e tem no elenco os platinenses Flávio Martim e Alex Martins, a jacarezinhense Daniela Fernanda e o paulista Daniele Lara, que também participou da formação da Cia. Farol. O restante do elenco é formado por atores londrinenses que se incorporaram ao grupo no período de transição.
A montagem de ‘‘Vidas Secas’’ foi a primeira peça desenvolvida em Londrina. A pré-estréia obteve a aceitação do público e empolgou o elenco. A peça traz uma visão mais didática da obra de Graciliano Ramos e permite a assimilação da obra com facilidade.
Segundo os atores, o objetivo é transmitir o mundo do autor para o público. A obra é uma adaptação livre do autor Carlinhos Lira, de São Caetano (SP). De acordo com o autor, a peça retrata as dificuldades da vida nordestina, o coronelismo e a luta pela reforma agrária. A peça dirigida por Patrícia Venâncio tem nove atores e a participação especial de dois músicos.
Apesar do sucesso, Martim faz uma critica às lideranças políticas da região. Segundo ele, é necessária a apresentação de peças de qualidade com preços e locais mais acessíveis ao público. ‘‘A comunidade da região não está acostumada a participar do teatro. Temos que facilitar o acesso a partir de iniciativas públicas e privadas’’. Martim ressalta o trabalho desenvolvido pela Fundação Cultural em Santo Antônio da Platina e adianta que são oferecidas aulas de iniciação teatral. Segundo o ator, esta é uma das poucas iniciativas de estímulo às artes cênicas na região.

mockup