Ourinhos - Uma imagem de Nossa Senhora de Aparecida é venerada e visitada por devotos de todo o país num santuário construído exclusivamente para ela em Ourinhos (SP). Trata-se de Nossa Senhora do Vagão Queimado. Ela tem um grande significado histórico e retrata um verdadeiro milagre ocorrido no dia 31 de julho de 1954, quando uma explosão e um incêndio de grandes proporções, aconteceu na Vila Moraes, na periferia da cidade.
Uma composição do trem, formada por vagões de passageiros, carga e tanques de combustível, que percorria a Estrada de Ferro Sorocabana, bateu com um caminhão tanque que transportava gasolina e óleo diesel. O trem foi atingido pelas chamas e vários vagões explodiram, provocando pânico e desespero na população. Como nas proximidades do acidente havia grandes tanques de combustível, o fogo poderia atingir os reservatórios e causar uma verdadeira catástrofe.
Crescia a ansiedade e o medo. Se os depósitos fossem atingidos pelo fogo, ocorreria uma tragédia gigantesca. Até o conhecido ''Repórter Esso'', maior noticiário do rádio brasileiro, deu a notícia em âmbito nacional. Foi mobilizado o corpo de Bombeiros de São Paulo, que chegou a Ourinhos em avião da Força Aérea Brasileira (FAB).
Quando a situação parecia incontrolável e a tragédia iminente, eis que de repente soprou um forte vento, direcionando as chamas em sentido contrário à área de risco. Todos se reanimaram e redobraram esforços. Depois de 7 horas de luta, a situação estava sob controle e o perigo totalmente afastado. ''Não houve quem não visse no vento forte a providencial mão de Deus. A agonia transformou-se em preces e gratidão'', afirmou Lourival Argente, testemunha ocular do acidente e das ações dos bombeiros e dos populares.
Imagem intacta
Três pessoas morreram no acidente, o motorista do caminhão, Palmiro Túlio, o
maquinista, José Stefani e o foguista Virgilio Pinto Amaral. O estrondo da explosão, as grossas nuvens de fumaça negra, as labaredas de grande proporção, provocaram pânico e correria entre os moradores da redondeza. Atônitos, muitos correram ao local do acidente, cooperando com os bombeiros e ferroviários que trabalhavam no acidente.
Durante o trabalho de rescaldo e procura de vítimas, chamou a atenção de todos um fato curioso. Num dos vagões queimados e totalmente retorcido, estava uma caixa intacta. Quando os bombeiros abriram a caixa, encontraram, envolta num lenço de seda, uma pequena imagem de Nossa Senhora Aparecida. Espanto, comoção, lágrimas!
''Nossa Senhora Aparecida salvara o povo de Ourinhos'', diziam os curiosos que se aproximavam do local. Logo teria nascido espontaneamente um movimento na cidade para construir uma capela para abrigar a imagem e perpetuar o grande evento. Assim surgiu o Santuário de Nossa Senhora do Vagão Queimado.
O encontro da imagem intacta de Nossa Senhora Aparecida causou espanto e temor na população ourinhense. A veneração foi imediata. Os bombeiros paulistanos até queriam levar consigo a imagem ''miraculosa''. Foram impedidos, pelo delegado local e, por fim, entregaram-na ao prefeito da época Domingos Camerlingo Caló. No dia seguinte ao acidente, a imagem foi levada ao hospital da cidade. Ela ficou ali durante alguns dias antes de ser levada a um dos altares laterais da igreja matriz de Ourinhos.
Mas, surpreendentemente, contrariando todos os sinais que apontavam para uma tranquila devoção à Nossa Senhora Aparecida, a imagem desapareceu. É que na época, a devoção à Nossa Senhora de Guadalupe, padroeira da América Latina, era mais intensa. Nossa Senhora de Aparecida ainda não havia sido declarada padroeira do Brasil e alguns padres da época decidiram retirar a imagem colocada na igreja.
Meses passaram e a história do acidente e do milagre foi esquecida. A imagem desapareceu da igreja ourinhense, no final dos anos de 1960. Mas, sinal da negação eclesiástica e da amnésia popular, seu desaparecimento só foi notado em 1973 quando o então monsenhor Violante, motivado por alguns leigos, iniciou a busca pela imagem.
O retorno
Uma verdadeira campanha foi deflagrada na imprensa local e regional para encontrar a imagem de Nossa Senhora do Vagão Queimado. Emissoras de rádio e jornais da época divulgaram e publicaram textos sobre o desaparecimento da Imagem, pedindo informações a todos os fiéis de Ourinhos e da região. Segundo o testemunho da empresária ourinhense Sônia Nicolau, sua mãe, Irene Nicolau, foi chamada, junto com uma amiga, pelo padre Beltrami até uma sala repleta de imagens, nas dependências da igreja do Senhor Bom Jesus.
Ele queria que elas escolhessem algumas delas. Era uma forma de agradecer aos auxílios financeiros que recebera para a sua paróquia. Dona Irene disse à filha que escolheu a imagem da Virgem Aparecida sem saber que era a mesma encontrada no vagão queimado em 1954, embora conhecesse a história do acidente.
Dona Irene levou a imagem para sua casa, em Ipaussu, cidade vizinha a Ourinhos, e colocou-a sobre uma cômoda, que fazia às vezes de oratório, em seu quarto. Inúmeras imagens do patrimônio espiritual e histórico da igreja tiveram o mesmo destino.
No dia 6 de agosto de 1974, a imagem retornou ao futuro Santuário, concluído e inaugurado no dia 15 de outubro de 1979. Anualmente, no dia 31 de julho é celebrada a missa de agradecimento à proteção recebida de Nossa Senhora. Hoje o Santuário, localizado na Avenida Gastão Vidigal 369, no Jardim Matilde, recebe fiéis do Norte Pioneiro, de cidades da região e de outros estados.
Próximo ao Santuário, foi erguido um obelisco em homenagem à santa. Diariamente são realizadas missas nos períodos da manhã e da noite. Aos domingos missas, batizados e outras celebrações reúnem centenas de fiéis. Todos os anos, na semana de 22 a 31 de julho uma extensa programação é realizada durante a Festa em honra a Nossa Senhora do Vagão Queimado. O dia da padroeira, 31 de julho é marcado por celebrações, procissões e recitações do rosário.

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