O salto quantitativo e, principalmente, qualitativo da pecuária brasileira nos últimos 10 anos foi enorme. Em apenas uma década deixamos de ser importadores de carne para nos tornarmos o terceiro País em exportação – perdemos apenas para Austrália e Estados Unidos. Por conta disso, tradicionais países exportadores como Argentina, Uruguai e Nova Zelândia estão incomodados com nosso avanço.
E é aí que mora o perigo, já que por terem boa carne e tradição de exportação vão querer retomar mercados perdidos, e para isso vale tudo. O que não podemos é relaxar. Principalmente no item sanidade, no que o mercado internacional é muito exigente.
De outro lado, o nosso rebanho comercial é o maior do mundo, com 165 milhões de cabeças. Mais gado que nós só a Índia – cujo povo cultua o boi como algo sagrado com 300 milhões de cabeças. Lá quase não há abate de bovinos.
Nossa produção de carne, de 1990 à 2000, aumentou 35%, passando de 5,2 milhões de toneladas para 7 milhões de toneladas, e o rebanho cresceu 20%. Obtivemos, também, grandes resultados no que diz respeito à taxa de natalidade, cuja média, hoje, é de 65%, contra 50% nos anos 70.
Outro grande avanço foi no desfrute – que representa, percentualmente, a relação de animais abatidos com o número do rebanho – que passou dos 13% em 1990, para 22% em 2000. Neste ponto, o crescimento foi vertiginoso. Se a linha continuar na ascendente, em poucos anos atingiremos um taxa de desfrute comparável às melhores do mundo. No que diz respeito à idade de abate, embora tenha havido progresso, precisamos melhorar: nossos animais são abatidos, em média, aos 3,5 anos.
Toda esta evolução é fruto do trabalho de melhoria genética, que vem sendo desenvolvido pelos criadores de gado P.O. que, a cada dia, se preocupam mais com a fertilidade e a precocidade. Aliada a isto, está a conscientização dos criadores de rebanhos comerciais, que estão investindo em touros melhorados e na inseminação artificial para a produção de bezerros de qualidade superior. O que, sem dúvidas, garante rentabilidade e competitividade, a principal receita da pecuária moderna.
- De bico...
É assim que está o mercado do gado gordo. Quem se programou para vender na entressafra, quando se tem uma melhor renumeração por arroba, está se desfrutando. É o caso específico dos confinadores, que no inicio do ano esfregavam as mãos, apostando num bom ganho. E olha que tinham motivos para isto: mercado futuro indicava bons preços; exportações aumentando; ganhamos a batalha contra os canadenses, fato que abriu novos mercados para nossa carne; dólar estabilizado, por conta disso alguns insumos estavam com custo considerado bom; milho com preço lá em baixo, etc...
De repente, o reverso da moeda: aftosa no Rio Grande do Sul e, consequentemente, perda de mercados; reajuste nas tarifas públicas que eleva o custo de produção e retrai ainda mais o já fraco consumo interno e, por fim, a disparada do dólar que, traduzida em miúdos, representa, no mês de julho, a menor cotação desde de 1985.
Naquela época a arroba estava cotada, preço à vista, em US$ 12,20. Hoje, US$ 15,20. Em se tratando do mês de julho, é o quinto pior preço, em dólar, desde 1976. Mantendo como referência julho e a cotação do mercado paranaense, de 1993 a 2000, a média é de US$ 22,40; o que representaria, hoje, R$ 55,00 por arroba.
Seguindo nesta linha de raciocínio, um boi de 17 arrobas estaria valendo R$ 935,00. Na cotação à vista de R$ 38,00 por arroba. Este mesmo boi está valendo R$ 646,00. Uma perda de 44,7%. Numa análise simplista, considerando um boi de 17 arrobas no valor de R$ 935,00; o invernista, mesmo pagando o preço histórico de US$ 150,00 por um bom bezerro, garantiria uma reposição de 2,5 bezerros.
- Rapidinhas
– Outro dia em Assunção, no Paraguai, o ministro Pratini de Moraes criticou a prática de subsídios agrícolas de americanos e europeus. Pergunto: se os políticos brasileiros não fossem tão corruptos e se não houvesse tanto desvio de verbas – para não dizer roubo – será que não sobraria dinheiro para subsidiar nossa agricultura?
– O presidente Fernando Henrique Cardoso anunciou que a agricultura terá R$ 14,7 bilhões para safra de 2001/2002. Particularmente não acredito nesse montante. A intenção – aliás, a mesma de dois anos atrás – é de produzir 100 milhões de toneladas. Desta feita a meta deve ser atingida, já que a safra de 2000/2001 deve ser de 97,4 milhões de toneladas. Quanto ao dinheiro, resta saber se estará à disposição de todos os agricultores. Porque aqui tem-se a mania de anunciar números extraordinários, e quando se vai ao banco em busca de recursos a grana nunca esta disponível ou então a agência não recebeu nenhuma ‘‘instrução# da matriz’’. O gozado é que isto só vale para os pequenos. Os grandes vão direto à matriz e se sobrar algum, vai para os ‘‘amigos’’ dos gerentes. Esta é uma prática comum que precisa acabar.
– Ao mesmo tempo em que o governador Jaime Lerner sancionava a chamada Lei Brandão – uma grande vitória do meio ruralista –, o governo federal anunciava a alíquota única de ICMS no País, já para o ano que vem, como se isso fosse a coisa mais simples do mundo. O secretário da Receita Federal, Everardo Maciel, mais realista, afirmou que é impossível que a matéria seja (se for) aprovada antes de 2003, para entrar em vigência em 2004. Como é matéria polêmica, de interesses diversos, vai haver muita ‘‘negociata’’. Aliás, uma palavra que soa como uma sinfonia de Bethoven aos ouvidos de nossos políticos.

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