Rando deixa reitoria da UENP
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terça-feira, 27 de agosto de 2013
Eli Araujo<br>Reportagem Local 
Jacarezinho - O professor Eduardo Meneghel Rando admite que sofreu um "conflito interno" antes de renunciar ao cargo de reitor da Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP). "Foi uma decisão difícil, mas que precisava ser tomada", afirma. Sua saída, programada para esta sexta-feira, foi comunicada ao Conselho Universitário (Consuni) no dia 29 do mês passado.
Rando é o primeiro reitor eleito da UENP e exerceu o cargo na maior parte do tempo enfrentando um câncer de intestino. Ele foi eleito como primeiro reitor da instituição no final de 2010 e a doença foi diagnosticada em abril de 2011, o que alterou quase toda a sua rotina. O professor passou por várias sessões de quimioterapia, mas continuou despachando como reitor no campus de Bandeirantes, aproveitando a proximidade com sua residência.
Até que seja definido como será a escolha do novo reitor que vai exercer um mandato tampão até o final de 2014, o vice-reitor Rinaldo Bernardelli Junior assumirá o cargo interinamente.
Na última sexta-feira, o professor concedeu uma entrevista exclusiva à FOLHA. Um dos principais trabalhos destacados por ele foi a criação de um "espírito coletivo" na universidade, uma vez que a UENP foi formada pela fusão de várias faculdades isoladas em três cidades diferentes, sendo que cada uma tinha o seu próprio modo de agir.
Como foi conciliar o tratamento com o trabalho?
Foi difícil porque o tratamento desta doença, com quimioterapia e cirurgias, é bastante pesado. Foi possível tocar porque há um campus da universidade em Bandeirantes, que é onde eu resido, e muita coisa eu já despachava por lá mesmo. E hoje com a internet, sistemas on-line, você consegue administrar os projetos que estão em andamento.
O que pesou na decisão de renunciar ao cargo?
O ponto mais importante é a saúde. Eu estou me recuperando bem. O tratamento já terminou. Agora é fazer o acompanhamento. A minha saúde está boa, mas é justamente por isso. A minha família falou: "nós não vamos brincar com essa doença. Já que está bom, vamos evitar esse estresse associado à administração pública, e você vai ficar aqui com a gente, você vai trabalhar aqui, e você fica em casa. Dessa forma, vai ser muito mais eficiente cuidar da saúde." Estou priorizando isso, mas realmente é um debate interno muito grande em nossa consciência. Mais do que uma universidade que a gente está construindo, eu também conquistei novas amizades. É uma equipe na qual eu deposito muita confiança. Essa ruptura realmente abala do ponto de vista emocional. Foi muito difícil eu tomar esta decisão mas ela tinha que ser tomada. Agora, vamos seguir a vida.
O que destacaria de seu trabalho como reitor?
Em primeiro lugar, nós saímos da estaca zero, praticamente. O que existia antes era provisório para finalmente a gente chegar aos nossos regimentos, estatutos. Efetivamente, nós começamos a universidade em 2011. Tivemos que organizar a estrutura física, as pró-reitorias, os órgãos de apoio e principalmente a parte de recursos humanos, quem iria assumir cada função. Hoje a universidade está estruturada, tem o seu organograma, funciona. O que destaco também nesses dois anos e meio é a construção de um espírito coletivo, de um espírito de universidade. Antes, eram faculdades isoladas, cada uma com seus problemas. Mudar essa cultura exige um comprometimento tanto da reitoria em promover ações que permitam que isso aconteça, mas depende muito de nossos docentes e de nossos servidores, de uma forma geral. É o espírito do coletivo universitário; não existe mais o é meu. A frase agora é nosso. Esse é um grande desafio que está sendo superado.
A UENP é uma universidade que já se consolidou ou que está a caminho?
Está a caminho. Eu acredito que a consolidação de uma universidade nunca vai existir. A universidade não para. Ela é dinâmica no seu conhecimento. Você desenvolve um conhecimento, ele puxa outro e assim vai. As universidades mais antigas do planeta têm em torno de mil anos. Nós temos dois anos e meio. Nós somos, assim, um bebezinho. Mas eu acho que nós demos um grande passo para ela ter um arranque nos próximos anos.
O que não conseguiu fazer neste período?
Tem alguns projetos que eu gostaria de ter terminado. A gente tem realizado muitos fóruns nas área de ensino, pesquisa e extensão. Mas para avaliar a busca da excelência no ensino, nós temos que trabalhar os nossos fóruns na área de ensino. E esse fórum vai ser executado possivelmente neste semestre e é um momento em que eu não estarei mais aqui. Este fórum era um sonho meu para a gente enxergar qual é a nossa meta e como nós vamos chegar lá para trazer essa excelência de ensino ao longo dos anos. O outro é a implantação do campus em Jacarezinho. Nós temos o terreno e começamos a conversar internamente. A minha vontade era ter feito pelo menos a parte inicial da proposta, do plano diretor ou um projeto arquitetônico. Outro projeto que a gente tem avançado muito em função do tempo porque não é coisa que aconteça da noite para o dia é a implantação de programas de mestrado e doutorado. Implantamos um curso de pós graduação no nosso período no campus Luiz Meneghel (em Bandeirantes) e temos pelos menos dois ou três projetos para serem encaminhados. Para mim, esta será a grande virada na vida da universidade.
Existe uma reivindicação do Norte Pioneiro em relação a um curso de medicina na região. Como analisa esta questão?
Hoje, as instituições de ensino superior que oferecem cursos de medicina estão mais alinhadas com interesse do governo em levar saúde para determinada região. O desenvolvimento de um projeto do curso de medicina está muito amarrado ao interesse do próprio Estado sobre onde levar este curso porque associado ao curso obrigatoriamente tem que ter um hospital universitário, com toda a sua infraestrutura. Este é um projeto muito caro e que exige a contratação de muita gente, de professores, de técnicos. Não é um projeto de curto prazo, mas é exequível, lógico, se houver vontade política do Estado. Acredito que vontade eles tenham, mas a demanda por recursos é muito grande no Estado. Ele vai ter que equilibrar todo esse processo para fazer com que um curso dessa natureza seja ofertado em uma universidade. Eu acho que seria um ganho enorme para a universidade e para a nossa comunidade, principalmente.
O senhor deixa a reitoria, mas continua vinculado à universidade?
Sim, sem dúvida. Eu vou lecionar uma disciplina em minha área de formação, que é de solos e nutrição de plantas, no curso de Agronomia, em Bandeirantes.
Nesse período como reitor fica alguma espécie de mágoa ou algo não foi bem resolvido?
Sempre fica alguma coisinha, mas o que nós conseguimos de positivo é tão grande que isso se perde. Eu saio com a sensação do dever cumprido e com a certeza que deixo aqui muitas pessoas queridas, competentes e com a certeza de que a universidade está em boas mãos. A gente espera que a coisa continue no bom caminho e eu estarei sempre disponível para colaborar no que for preciso.


