Pinga é produzida há 70 anos
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quinta-feira, 29 de novembro de 2001
Marcos André Brito<br> De Cambará<br> Especial para a Folha 
A família Utida desembarcou no Brasil em 1927 e seguiu para Iapuçu, no interior de São Paulo. Dois anos depois, adquiriu uma pequena propriedade, de 40 alqueires, nas proximidades do povoado de Lambari, transformada posteriormente na cidade de Cambará. Foi necessário abrir a mata virgem, combater doenças tropicais da época e enfrentar animais perigosos como onças e cobras.
Superados os primeiros desafios, Kiniti Utida decidiu plantar cana para produzir aguardente e a produção já passa por três gerações. O nome Alambari foi a homenagem que Kiniti Utida prestou com seu aguardente a Cambará. A produção em escala começou em 1932. Na época, as moendas eram tocadas a burro e o alambique totalmente artesanal.
No primeiro ano, o sítio Lambari produziu cinco mil litros de aguardente, um recorde para a época - hoje a capacidade é de 10 mil litros por dia. Atualmente, grande parte da produção é consumida no sul de São Paulo e no Norte do Paraná.
O sítio, roteiro indispensável para os amantes da cachaça, conserva ainda, além do sabor original, parte daquele que foi o primeiro alambique de produção de aguardente no Norte Pioneiro.
Utida gerenciou o alambique até 1996, quando o filho Luiz e outros irmãos assumiram a produção. Foi o período de maior produção da cachaça Alambari, chegando a comercializar, em um ano, um milhão de litros.
A decadência nos preços do aguardente desestimularam a produção de pinga nos últimos 10 anos. A população, segundo Luiz Utida, deixou de consumir cachaça para tomar cerveja. ''A aguardente sempre teve uma conotação negativa no Brasil, mas houve um tempo em que a população não dispensava um traguinho, uma caipirinha de pinga, ou outro coquetel preparado com ela'', diz.
Aos 75 anos, Luiz revela que manter a tradição não é tarefa das mais fáceis, mas ele pretende conservar a caninha enquanto tiver saúde. ''Nós paramos de produzir em grande escala por causa dos preços e também pela saúde. Encarar um alambique não é fácil. É preciso muita saúde e disposição para cuidar de tudo isto. Como o corpo já não responde mais com tanta eficiência, decidimos transferir a responsabilidade para os mais novos''.
O segredo para produzir uma pinga de qualidade, segundo Luiz, está na formação de uma equipe especializada, que trabalha dentro das normas específicas, desde a lavoura, passando posteriormente pela usina e finalmente a comercialização do produto. ''Todas as etapas de produção merecem atenção. Apesar da automação existente hoje, muitos cuidados devem ser observados'', lembra o empresário.
Quando estava no auge da produção, o alambique tinha cerca de 70 funcionários, número que foi reduzido por causa da automação. A qualidade do aguardente é reconhecida em toda a região. Luiz revela que muitas pessoas vão ao sítio para comprar pinga envelhecida nos tonéis de carvalho a preços que podem chegar a R$ 15,00 o litro.
Como a pinga não tem prazo de validade, quanto mais velha melhor. Os podem armazenar mais de 400 mil litros. Ele defende o consumo da pinga branca, mas não dispensa uma amarelinha também engarrafada no alambique. ''Durante todo o ano recebemos a visita de pessoas, autoridades e até artistas para comprar a pinga Alambari'', afirmou Luiz.


