Ousadia paulista no sertão paranaense
Mas a ocupação de toda a região norte-noroeste, estendendo-se além do Tibagi, somente seria apressada com o advento da ferrovia. Assim que se ouvisse o silvo das locomotivas a quebrar a quietude, previra Edmundo Alberto Mercer no artigo intitulado Far West Paranaense, publicado no Diário da Tarde (Curitiba) de 22 de abril de 1921.
Descendente de ingleses, engenheiro e atento observador, Mercer fora prefeito de Tibagi e referia-se ao norte-noroeste e uma faixa de transição para oeste configurando uma superfície de uns 100.000 km2 que se desdobra ao longo do Rio Paraná, o litoral do oeste, ladeada pelo Iguaçu e o Paranapanema, distinguindo-se no interior o Rio das Cinzas, o diamantífero Tibagi, o Ivaí, o Piquiri e tantos outros.
Falta aqui o paulista audaz e enérgico, repara após descrever o imenso potencial. Tivéssemos tido aqui esse digno representante dos bandeirantes ou quem o imitasse, por certo a esta hora estes sertões estariam cortados, em todas as direções, de estradas de ferro, único elemento capaz de fazer, nestes tempos, o processo de um país e a grandeza de um povo.
Na realidade, os paulistas estavam chegando desde desde 1888, juntamente com mineiros, na origem de Jacarezinho. Presença tão ostensiva que, em 1892, o governado do Paraná, Francisco Xavier da Silva, sugeriu aos deputados estaduais legislar sobre terras devolutas (do Estado) no vale do Paranapanema, tão ambicionadas pelos mineiros e paulistas e por estes últimos consideradas, para a cultura do café, como prolongamento do território do seu Estado.
Mudando-se de Ribeirão Preto, em 1910 o major Antônio Barbosa Ferraz Júnior inicia a formação da Fazenda Água do Bugre no futuro município de Cambará; expandindo-se a cafeicultura em uma década, ele e outros fazendeiros decidem construir ferrovia para escoar a produção.
Um ano após o artigo de Mercer no jornal, a Companhia Ferroviária Noroeste do Paraná recebe do governo paulista, em 25 de novembro de 1922, licença para construção, uso e gozo de uma ferrovia de nove quilômetros entre a estação de Ourinhos [Sorocabana] e um ponto na margem esquerda do Rio Paranapanema. Os restantes 20 quilômetros, até Cambará, são liberados pelo Estado do Paraná.
Os Barbosa Ferraz, Antônio e Gabriel Ribeiro dos Santos, Manoel da Silveira Corrêa e Willie Davids, entre outros paulistas audazes, iniciaram a ferrovia e a transferiram, em 1928, ao grupo de Lord Lovat. A pretensão dos ingleses, empenhados na colonização do Norte Novo, era estabelecer um dos segmentos da ligação Santos-Assunção, defendida por Cincinato da Silva Braga. Deputado federal por São Paulo a partir de 1891, autor de A Intensificação Econômica do Brasil (1917).
Sua visão era a ferrovia através do Norte do Paraná, daí rumando para oeste, até onde transpusesse o grande rio, abaixo das Sete Quedas, entrando no Paraguai. Não chegaria a tanto, mas determinou a ocupação do far west paranaense. (W.S.)





