A dança dos números é típica nestas épocas em que os levantamentos sobre a colheita ainda estão em andamento. Ontem, o Brasil conheceu uma nova estimativa da safra de grãos deste ano, de acordo com o ministro interino da Agricultura, Márcio Fortes de Almeida, que anunciou na terça-feira o resultado do mais recente levantamento de campo feito por técnicos da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
Segundo este trabalho, a projeção da safra cai agora para 98,5 milhões de toneladas de grãos, ao contrário dos 100 milhões de toneladas anunciados recentemente e que repercutiram no País em doses de euforia. A causa da baixa na estimativa, conforme o Ministério da Agricultura, seria a quebra na segunda safra de milho, a safrinha, de 1,8 milhão de toneladas. Disse ainda o ministro que a estiagem e as altas temperaturas registradas no final do ano passado prejudicaram as culturas de verão no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. Especificamente em relação ao milho, a quebra teve como causa a seca. Mesmo assim, a colheita de 2002 deverá ser superior a do ano passado, quando se registrou 98,3 milhões de toneladas de grãos.
O fato de não se atingir o recorde de 100 milhões de toneladas em nada desabona a agricultura brasileira. Pelo contrário, a profissionalização do produtor rural deste País, hoje melhor preparado tecnologicamente não somente para o cultivo, mas também nos demais procedimentos relacionados à atividade, já resultou em posições extremas dos Estados Unidos. Lá, onde o setor esteve sempre escorado na política dos subsídios, não restou ao governo outra alternativa senão subsidiar ainda mais a agricultura na tentativa de prejudicar o mercado para os produtos brasileiros.
Tal medida tem efeito sim, mas o papel de anulá-lo é político. Cabe, portanto, ao governo brasileiro, através de sua diplomacia e dos órgãos competentes, enfrentar uma briga de gigantes. Os EUA, de um lado, com o seu poderia econômico e sua influência política sobre os quatro cantos do mundo, e cá o Brasil, que neste momento não deve se intimidar, tendo a certeza de dispor de uma área agricultável imensa e de contar com produtores, cooperativas e demais organismos que representam o setor adequadamente capacitados para entrar na guerra da concorrência. As armas que o Brasil dispõe são, evidentemente, essa profissionalização já referida acima, além da vastidão de terras, também já mencionada.
Outra ferramenta terá de ser mais de efeito moral: é a consciência de que o Brasil, como grande produtor agrícola, merece seu espaço no mercado por estar preparado para uma concorrência justa e leal.
O mais recente exemplo de que toda empreitada nesse sentido, quando encarada com seriedade, rende pontos para o País, é o da indústria da aviação. Brasil e Canadá se degladiaram por anos seguidos na disputa pelo mercado de aeronaves. Se ainda se diz que o Brasil não venceu totalmente esta batalha, com certeza pode-se afirmar que o País, pela disposição de brigar pelo mercado, ganhou respeito internacional.

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