Omissos
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 22 de agosto de 2001
Ricardo Gonçalves Strenger 
A crise cafeeira mundial é de extrema gravidade e não podemos apenas observá-la, reclamando com razão, mas sem efeito prático, reclamação vazia. Há necessidade de encontrarmos saídas, para isso precisamos de união.
A Associação Paranaense de Cafeicultores (Apac) vem trabalhando no sentido de aumentar a representatividade, procurando associar a todos os cafeicultores paranaenses. Democraticamente, estamos levando uma nova visão ao campo, em associação com a Emater/PR, o Iapar e a Secretaria Estadual de Agricultura e Abastecimento, onde a associação de todos é essencial.
O Conselho Nacional do Café (CNC), como órgão de representação de classe a nível nacional, é o ambiente onde levamos nossas sugestões e reclamações. Para sermos ouvidos precisamos aumentar a representatividade e o estatuto da entidade permite até mesmo a associação de cafeicultores.
O Conselho de Desenvolvimento de Política Cafeeira (Cdpc) é o órgão que temos, não o que queremos, para lutarmos por nossas reivindicações no âmbito federal. Mudanças devem ser exigidas, mas sem participação e representatividade não conseguiremos.
A linguagem, os vícios, as benesses são seculares. Somos hoje o instrumento do lucro dos outros, mas com certeza por culpa nossa. Culpa porque só gritamos na crise, nada fazemos para estruturar e abrir esta verdadeira ''caixa-preta'' que é a política cafeeira.
A Apac conclama a todos os cafeicultores a se unirem, para que possamos lutar. Lutar pela rotulação do café, essencial para ordenar o mercado e inibir o consumo de café robusta, levando transparência ao consumidor.
Lutar contra pesquisas de safra superestimadas. Já acionamos empresas na justiça federal. Lutar pela fiscalização do café industrializado na origem, para impedirmos o uso de palha melada e outras impurezas. Inócua tem se mostrado a fiscalização do produto na prateleira do supermercado.
Lutar para que os produtores não vendam palha melada. Lutar para acharmos maneiras de descaracterizar o café como commoditie única, e acabarmos com os especuladores de Nova York.
Lutar contra o Plano de Educação ao Mercado (PEM) da Abic. O mercado não tem que ser educado, tem isto sim que ser orientado, e este plano não passa de mais uma manobra de marketing para camuflar as informações ao consumidor.
Lutar por um marketing efetivo que valorize todo o café brasileiro e não apenas o café especial (1,5% da produção total), depreciando todo o remanescente. Lutar para que a qualidade do café brasileiro seja reconhecida, premiando nossos esforços em produzir qualidade.
Lutar por diferenciais de preços que realmente remunerem os produtores pela qualidade e não as esmolas que recebemos. Lutar por concursos que não apenas identifiquem produtos para grandes empresas. Lutar para que o pequeno cafeicultor seja ouvido. Lutar para que a indústria não estrague a qualidade do nosso café.
Lutar para que o café arábica não vire aromatizante de robusta. Lutar por mais verbas para pesquisas. Lutar por mecanismos de créditos mais justos e democráticos. Lutar por uma CPR condizente com a realidade e que não se torne um pesadelo na hora da entrega.
Lutar por um reordenamento econômico da cafeicultura brasileira. Lutar para que o cafeicultor seja competente da porteira para fora, com força política para fazer valer suas reivindicações e poder influenciar nos preços. Lutar para levar informação ao campo. Para isso a Apac acaba de lançar um jornal mensal.
Lutar por tantas outras coisas que cada cafeicultor sabe, mas que não as expõe por estar alienado e sem participação. Pedimos a todos os cafeicultores que associem-se às associações municipais, estaduais e cooperativas, fazendo assim com que essas lutas se tornem realidades e possamos mudar o perfil da cafeicultura, distribuindo equitativamente a riqueza que o café gera.
Não podemos trabalhar isoladamente contra verdadeiros monstros que nos assolam. Associação é fundamental, pois associação é união. União é desenvolvimento. União é representatividade.
Devemos ter união para exigir transparência, honestidade, respeito, para lutarmos contra a opressão, para defendermos o produtor e união por igualdade na cadeia produtiva. No caso do café não há excluídos, há omissos.
- RICARDO GONÇALVES STRENGER é presidente da Associação Paranaense de Cafeicultores (Apac)


