O Hip Hop da Vila São Pedro
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quarta-feira, 20 de dezembro de 2017
Rubia Pimenta<br>Especial para a FOLHA 
Cornélio Procópio Eles nasceram e foram criados na Vila São Pedro, na periferia de Cornélio Procópio. Vivenciam os dilemas daquela comunidade e transformam em arte. "Tive amigos que se perderam nas drogas, que acabaram indo para a criminalidade. Temos dificuldades para estudar, arrumar um emprego digno. Essa angústia, comum aos jovens pobres, a gente transformou em rap. Mas também falamos da força para superar as dificuldades, das famílias que mesmo sem dinheiro criam seus filhos corretamente, promovemos o respeito às etnias, a cultura como resistência. Então, muito do que expresso nas letras é o que vivemos na Vila São Pedro", conta José Paulo Liaschi Marçal, 21 anos, também chamado de MC Liaschi.
Em novembro, Liaschi e o irmão, Patrick, 26 anos, mais conhecido como Jatobá Beatz, lançaram o primeiro EP (sigla de Extended Play - um CD com menos músicas) intitulado "Silence". As letras são de Liaschi, com participações de rappers de destaque, como Nocivo Shomon (SP) e Gabriel Xan (RJ), e de DJs de todo o Brasil. A produção é de Jatobá Beatz e durou seis meses.
Foram gravados videoclipes de três faixas, produzidos por Márcio Cavalcanti. "Todas as imagens foram captadas em Cornélio, procuramos mostrar as nossas raízes", diz Liaschi.
Uma das produções mais interessantes é a música "Na Humidz". "Eu fiz a base e disponibilizamos para seis MCs, de várias partes do Brasil, criar as letras. Quando o material retornou, reuni tudo e fiz algo novo. Ficou muito interessante, tem sido bastante elogiada", conta Patrick.

SUPERAÇÃO
A história de Patrick é um exemplo de superação. Aos 10 anos, após fazer uma cirurgia para correção de miopia, sofreu uma infecção nos olhos, que o levou à cegueira. "Foi um grande trauma, mas foi justamente isso que me aproximou da música. Eu não tocava nada, mas desenvolvi a audição, e hoje domino oito instrumentos. Toquei muito em banda de rock, mas também aprendi outros estilos, como sertanejo, para ganhar dinheiro."
Foi Patrick que apresentou o rap ao irmão, ao dar-lhe de presente, há oito anos, um CD do Marcelo D2. Mas sua entrada definitiva no mundo do hip hop foi mais tardia. Há cerca de dois anos, após perder o emprego no comércio, ele investiu seu acerto em aparelhagens e montou um pequeno estúdio em casa. "Sempre achei interessante as diferentes batidas do rap, as mixagens. Comecei a pesquisar o assunto, fiz cursos e hoje vivo disso." Ele faz gravações de artistas locais de rap, funck, e outros estilos, além de produzir batidas e samples que disponibiliza na internet. "Vendo para todo o Brasil, e recentemente fiz um para a Austrália. Recebemos direitos autorais."
Os irmãos vivem exclusivamente para o rap. Liaschi, que possui habilidade para construir belas rimas e cantar, tem se destacado nas "batalhas de MCs" (onde um artista desafia outro para improvisar estrofes de temas aleatórios).
"Recentemente ganhei a batalha de Maringá, da Concha Acústica de Londrina, e também fiquei entre os oito finalistas da competição estadual". Ele frisa que o movimento do hip hop no Norte Pioneiro é forte. "Somos bastante unidos com os amigos de Santa Mariana e Bandeirantes."
Em Cornélio Procópio, Liaschi é um dos organizadores do "Rei da Rima", que tem reunido dezenas de jovens para as batalhas de MCs e apresentado novos talentos. "Também promovemos o gravite e a dança."
Segundo Liaschi, a valorização da música é essencial, pois ela é libertadora. "É onde soltamos nossas tensões, nosso pensamento, e mostramos que sempre há outros caminhos. O rap é uma intervenção de paz."
Serviço:
Para conhecer o trabalho dos irmãos Liaschi:
www.youtube.com/liaschimcoficial
www.facebook.com/liaschimc
Instagram Liaschimc


