O drama das drogas assusta o Norte Pioneiro
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quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
Vítor Ogawa <br> <br> Reportagem Local
Jacarezinho - O problema das drogas deixou os grandes centros urbanos e integra a realidade das cidades do interior do Brasil. Atualmente existem registros de uso de crack em 94,6% dos municípios do Paraná, segundo dados da Confederação Nacional dos Municípios (CNM). O Norte Pioneiro não é uma exceção e municípios que antes eram considerados pacatos precisaram criar centros de tratamento para dependentes químicos para enfrentar o problema da droga.
A ex-cortadora de cana-de-açúcar Paloma (nome fictício), 23 anos, de Jacarezinho, está internada na Comunidade Feminina de Assistência aos Dependentes de Drogas (Cofadd). Seu gasto semanal com a droga ficava entre R$ 200 e R$ 500. ''Quando conseguia juntar mil reais eu gastava tudo em crack'', destaca. Aos 17 anos ela tornou-se garota de programa para financiar o vício. ''No começo eu cobrava R$ 70 por programa, mas depois fui reduzindo o valor. No meu último programa eu cobrei R$ 20'', destaca.
Paloma desbafa que a sensação de humilhação era grande. ''Às vezes dava uma depressão, um sentimento de abandono e muita vergonha.'' A ex-cortadora de cana revela que só se deu conta de que estava no fundo do poço quando perdeu a confiança da família e de todos que conviviam com ela. ''Eu tenho um filho, que mora com a minha mãe e mais duas filhas que não tive mais coragem de vê-las por estar com muita vergonha.''
O estudante Robson (nome fictício), 22 anos, começou a usar maconha por influência de amigos quando adolescente. ''Depois comecei a fumar um mesclado, que é a mistura de maconha com crack para enfim consumir o crack puro. Foi aí que começou a destruição de minha vida'', relata. Para sustentar o gasto semanal de R$ 1 mil com o vício ele roubava e traficava. ''Eu comprava as drogas, vendia a metade e usava a outra metade. Também furtava a casa dos outros e a minha própria casa'', admite.
Em Jacarezinho duas comunidades terapêuticas trabalham na recuperação dessas pessoas, a Comunidade de Assistência aos Dependentes de Drogas (Cadd) e a Comunidade Feminina de Assistência aos Dependentes de Drogas (Cofadd). Em Cambará está sendo formada uma comunidade terapêutica para crianças e adolescentes e em Carlópolis outro centro voltado para dependentes químicos. O Consórcio Intermunicipal do Vale do Rio das Cinzas que anunciou também a construção de um centro de recuperação de dependentes químicos em Japira.
A assitente social dos dois centro de Jacarezinho, Terezinha de Jesus Cordeiro, afirma que não existe um perfil das pessoas que são internadas nos centros terapêuticos. ''Temos internos com mais de 60 anos e, ao mesmo tempo, adolescentes de 14 anos, que começam nessa vida cheirando cola, depois migram para a maconha e acabam consumindo o crack.
Terezinha ressalta ter sido abordada por traficantes em pleno centro da cidade e que também já ouviu depoimentos absurdos. ''Ouvi relatos de cortadores de cana-de-açúcar que alegam que produzem mais usando crack'', destaca.
Os dois centros, segundo a assistente social, trabalham com lista de espera. ''Temos mais do que o dobro de nossa capacidade aguardando uma vaga'', revela. As entidades não possuem fins lucrativos e, segundo ela, 20% das vagas são destinadas a pessoas que não têm condições de pagar o tratamento, 5% são de pessoas enviadas pela Justiça para realizar o tratamento compulsoriamente e o restante dos atendidos pagam entre um e dois salários mínimos para custear o tratamento. ''Entre as pessoas que pagam pelo tratamento, 90% utilizam o auxílio-doença, benefício garantido por lei até um ano depois para quem deixou de trabalhar'', informa.
Na comunidade os pacientes recebem hospedagem, alimentação, acompanhamento psiquiátrico, psicológico, além de aulas por meio do programa de Educação de Jovens e Adultos (EJA). A laborterapia é uma das atividades que ajudam os pacientes a esquecerem um pouco o universo das drogas. ''Eles trabalham na horta, plantam milho, cuidam dos animais e fazem a limpeza. As mulheres pintam panos de prato, fazem crochê e também realizam a limpeza'', detalha Terezinha. A assistente social ressalta que a dependência química não tem cura, apenas controle. ''Por isso chamamos os dependentes de adictos, palavra que significa escravo. Uma pessoa pode ser adicta e ficar sem consumir drogas durante dez anos, mas precisa sempre se controlar'', ressalta.
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