Norte Pioneiro aguarda reposição de 33 profissionais
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quarta-feira, 28 de novembro de 2018
Viviani Costa <br> Reportagem Local 
O abraço apertado e as lágrimas da dona de casa Silvia Helena da Mata refletem a gratidão pelos atendimentos realizados pelo médico cubano Camilo Francisco Perez. "Vi no jornal que ele ia embora. A gente fica muito triste, mas ficar aqui não depende dos médicos. Quem sofre é a gente que depende deles", diz a paciente ao lado do profissional na sala de espera da unidade de saúde. A dona de casa vive em Quinzópolis, distrito de Santa Mariana que fica a 15 km da área urbana. A população local é de, aproximadamente, 900 habitantes. A chegada do médico cubano em 2014 mudou a rotina dos moradores. "Menina, mudou muita coisa aqui que vinha desde o tempo da minha mãe. Agora a gente está no céu", resume.
Cuba decidiu encerrar a participação no programa Mais Médicos após declarações do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) que questionou a formação dos médicos estrangeiros e comentou possíveis alterações nos termos de cooperação do programa. O primeiro grupo de cubanos deixou o Brasil na última quinta-feira (22) rumo a Havana. Um novo edital foi lançado para substituir os médicos por profissionais brasileiros, mas os interessados têm até o dia 14 de dezembro para se apresentar nos municípios. Enquanto isso, algumas unidades permanecem sem atendimentos.
Ao todo, são aguardados 33 profissionais para as cidades do Norte Pioneiro. Assaí e Wenceslau Braz devem receber quatro médicos em cada município. Três profissionais são esperados em Cornélio Procópio. O edital do programa Mais Médicos também oferta vagas para as cidades de Abatiá, Andirá, Arapoti, Guapirama, Ibaiti, Itambaracá, Jaboti, Jacarezinho, Jaguariaíva, Japira, Jataizinho, Joaquim Távora, Salto do Itararé, Santa Cecília do Pavão, Santo Antônio da Platina e Sengés.
Em Quinzópolis, a dona de casa do início da reportagem e uma centena de pessoas participaram do projeto Caminhada pela Vida com aulas semanais de alongamento, caminhada, palestras, aferição de pressão, medição de glicemia, além de um café da manhã. A proposta, implantada logo após a chegada do médico cubano, também foi levada para Santa Mariana e para o outro distrito do município. Panema fica a 25 km da área urbana e possui, aproximadamente, 2.300 habitantes.
"O atendimento aqui melhorou muito. Antes o médico vinha duas vezes por semana, uma hora por dia, benzia a gente e ia embora. Depois fazia o mesmo no outro distrito. Hoje são quatro horas por dia", relata o paciente e subprefeito do distrito de Quinzópolis, Ailton Cuqui.
O médico cubano se divide entre os atendimentos de Quinzópolis e Panema e acumula mais de 20 anos de experiência. Antes de participar do Mais Médicos, Perez atuou em Cuba, no Haiti, na Bolívia e na Venezuela.
O projeto Caminhada pela Vida durou pouco mais de dois anos e só foi interrompido em razão de outra ambição do profissional. Incomodado com as anotações feitas a mão sobre os atendimentos, Perez, que também possui conhecimento em TI, desenvolveu um prontuário eletrônico nas horas vagas. "Temos uma boa equipe aqui. Não vou te dizer se esse programa é bom ou não. Vou te mostrar e você vê o que acha", sorri o médico.
Por meio do programa de computador, é possível registrar os dados dos atendimentos, pesquisar sintomas e doenças, acrescentar resultados de exames e diagnósticos, buscar medicamentos e acompanhar detalhadamente o estado de saúde de cada paciente. Os profissionais da unidade de saúde se envolveram na proposta e ajudaram o médico cubano a digitalizar as informações dos últimos anos.
Perez desenvolveu também um mecanismo que calcula as estatísticas locais e identificou que hipertensão, infecção urinária e diabetes são as principais doenças registradas em Quinzópolis. O programa informa ainda a quantidade de medicamentos receitados aos pacientes e que deve ser adquirida pela unidade de saúde. Sem compras desnecessárias, o médico aposta em uma economia nas contas do município. Ao encerrar o atendimento, um cartão é impresso ao paciente com os dados atualizados, o diagnóstico e o medicamento prescrito (se houver) e a data da próxima consulta.
A apresentação do projeto piloto a outros servidores do município já estava agendada para esta semana e foi mantida, mesmo após a notícia de que Perez será obrigado a deixar o Brasil nas próximas semanas. O médico lamenta o retorno, mas se concentra agora em repassar o máximo de informações aos profissionais do município que devem dar continuidade ao projeto. A intenção da prefeitura é implantar o sistema em todas as unidades de saúde para integrar os atendimentos em Santa Mariana.
"O que você faz pela humanidade não pode parar. Quero que eles deem continuidade. Nós médicos cubanos escolhemos vir para cá. Não fomos obrigados. Não somos escravos. A gente escolheu vir, mas nenhum dos dois países [Brasil e Cuba] nos perguntaram se a gente queria continuar ou se o povo atendido queria que a gente continuasse. Em Cuba tenho trabalho, tenho casa e também me conforta voltar e ver as minhas filhas. Agora o futuro não sei como vai ser", afirma o médico.
"Foi maravilhoso estar aqui. Aqui achei trabalho e amor. Hoje é minha segunda terra. Consegui me incluir nesses distritos. Eu vivi uma grande ilusão. Nunca se conseguiu aqui fazer uma coisa permanente. Então foi uma ilusão maravilhosa", conclui Perez.
APREENSÃO
Conforme a secretária de Saúde de Santa Mariana, Fátima Bergamini, muitos municípios temem que as vagas disponíveis não sejam preenchidas nas cidades menores em razão da falta de interesse dos profissionais, em geral. "O médico que trabalhou conosco atuou junto com a comunidade e conseguiu fazer um bom diagnóstico. Nós lamentamos muito a saída dele", comenta.
"Há cubanos em mais de 60 países. Como é que se pode duvidar da medicina cubana? Não estou dizendo que os médicos cubanos são perfeitos, mas não posso me basear em exceções para avaliar o programa porque ele está ajudando toda a população", critica o prefeito de Santa Mariana, Jorge Nunes. Segundo ele, o município não terá condições financeiras para contratar um novo profissional, caso a vaga não seja preenchida.
O município de Santa Mariana é atendido pela 18ª Regional de Saúde de Cornélio Procópio. O diretor da 19ª Regional de Saúde de Jacarezinho, Ronaldo Trevisan, frisa que houve agilidade por parte do governo federal para repor os profissionais e o atendimento não está comprometido. "Todos estamos preocupados com relação a esse período que pode ficar sem assistência nas unidades onde estavam os médicos cubanos. Mas nós temos outras unidades com outros profissionais brasileiros ou de outros países que continuam em atividade e não houve mudança nenhuma. Os municípios estão mantendo os atendimentos com as equipes fixas. Não há um comprometimento maior da assistência", afirma.


