Cornélio Procópio - Sexta-feira é dia de "batalha" no centro da cidade. Eles saem da periferia de Cornélio Procópio à noite, para se encontrar no coreto da Praça Botafogo, onde as disputas aconteciam até 2014, atraindo a atenção de todos que faziam suas caminhadas por ali. Uma disputa na qual a principal arma é a rima, e o vencedor é o que possui o raciocínio mais rápido, e cativa o público com versos ousados.

Batizado de "Rei da Rima", as batalhas de MCs em Cornélio Procópio cresceram vertiginosamente em 2014, reunindo de 50 a 100 pessoas em cada encontro. Na disputa, um MC desafia outro, com versos improvisados, que devem seguir a batida do rap. O evento procopense ganhou fama e tem atraído artistas não só da região, como também de outros estados, como São Paulo e Santa Catarina.

"Tudo começou quando juntamos cinco camaradas para fazer uma roda de rima. Foi algo improvisado, com som de celular mesmo, lá na Praça Botafogo. Cada um soltava um verso dizendo um pouco do que estava sentindo. Veio então a ideia de fazer uma oficina de Hip Hop, pra ensinar a molecada a rimar. A partir daí os encontros foram só aumentando", conta um dos fundadores do evento, José Paulo Liaschi Marçal, o MC Liasche, de 18 anos.

"Nunca tivemos um som sofisticado, iluminação, nem nada. Às vezes os amigos levavam aparelhagem própria, mas teve encontro que as batidas eram feitas só com a boca (beatbox). O espaço sempre foi aberto para quem quisesse chegar e se expressar. Vinha gente para soltar um verso e entrar nas disputas, outros só para assistir as batalhas. Nunca foi cobrado nada, sempre foi algo bem independente, só pela diversão e curtir o som que a gente gosta", conta o outro organizador, Anderson Aparecido Mendes, o DJ Derson, de 21 anos.

Além das disputas, o evento também abriu espaço para que os MCs mostrassem suas músicas. O rap de contestação é o que predomina, expondo problemas sociais e as dificuldades de um jovem da periferia. "Essa onda de ostentação aqui não cola. Não dá para engolir isso, com tanta coisa errada. A ostentação é pura ilusão. Nossa ideia é levar o debate, o protesto. O rap tem de ter mensagem, ele pode mexer com a cabeça do cidadão e trazer uma mudança", diz Liaschi.

NOVA FASE
Com o sucesso do "Rei da Rima", o movimento ganhou apoio. A partir deste ano os encontros serão quinzenais, sempre às sextas-feiras, no coreto do Calçadão da Avenida 15 de Novembro. "Será um evento mais organizado. A Polícia Militar e a Prefeitura estão avisados e nos darão apoio, estamos conseguindo uma estrutura de som bacana também", comemora Derson. Os rapazes agora lutam para conseguir patrocínio e oferecer premiações aos vencedores das batalhas.

Para o produtor cultural Eduardo Lopes, o Touché, eventos como o Rei da Rima são muito importantes. "O rap é um link essencial para chegar nessa molecada, especialmente de periferia. Eles se identificam com o som, pois fala da realidade deles. É uma arte que pede transformação, e pode resgatar muitos jovens".

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