Jacarezinho - O prazo para que o arrematante do patrimônio da usina de açúcar e álcool Casquel Agrícola e Industrial S/A fizesse o depósito referente à primeira parcela para assumir a empresa terminaria na noite de quarta-feira da semana passada, mas chegou a quinta-feira e a conta da Justiça permanecia sem esta movimentação financeira. Como a tecnologia atual permite que a maior parte das transações sejam instantâneas, algumas pessoas contavam com a possibilidade de que a greve dos bancários poderia ter atrasado a entrada do crédito. Mas até ontem, o pagamento não havia sido efetuado.
A Casquel foi arrematada em uma circunstância suspeita e misteriosa no leilão da Justiça do Trabalho no último dia 8, em Jacarezinho. Uma pessoa que não havia se habilitado inicialmente para o leilão deu um lance de R$ 35 milhões para arrematar o patrimônio da empresa, frustando a expectativa de outros interessados.
O leiloeiro Paulo Nakakogue havia colocado como regra que a preferência seria para quem fizesse o pagamento à vista. Se isto não acontecesse, o valor do arremate poderia ser parcelado em até 10 vezes, com 40% do pagamento em 24 horas, no máximo. Assim, o valor a ser depositado para a efetivação do arremate da Casquel era de R$ 14 milhões.
O presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Fabricação de Álcool de Jacarezinho e região, José Ramos Vasconcelos, desconfiou que alguma coisa estava errada e que tudo não passava de mais uma articulação para impedir o leilão. A primeira tentativa de se leiloar os bens da Casquel, no final de novembro do ano passado, foi cancelada quando o evento estava para ser iniciado. "Tem gente que não quer que o leilão aconteça e faz de tudo para obstruir, mas a Justiça tinha que mandar prender essas pessoas", desabafa.

Mais problemas
Além das manobras que impedem o leilão, Vasconcelos teme também que o critério adotado no leilão passado, de fragmentar o lote principal em várias partes, possa não dar o resultado financeiro esperado e prejudicar ainda mais os trabalhadores que estão na expectativa de receber seus direitos trabalhistas há mais de três anos. "Como eu vou chegar para o trabalhador que está esperando há tanto tempo e dizer que ele não vai receber os 100% de suas verbas rescisórias?", questiona.

Revolta
Entre os ex-funcionários da usina o clima é de revolta com a situação. A reportagem da FOLHA conversou com três deles em Cambará, onde fica a sede a empresa.
Um dos trabalhadores é o jovem Régis Rodrigues, que atuou durante um ano e meio no setor administrativo da Casquel. Depois, ele trabalhou em outra empresa, mas atualmente está desempregado. Por direito, Rodrigues tem cerca de R$ 20 mil para receber, sem contar os juros. "São mais de mil pessoas esperando por esse dinheiro, inclusive cortadores de cana", reclama.
O ex-gerente de compras da empresa, Claudinei dos Anjos, diz que a Justiça deveria ser mais rigorosa com os antigos donos da usina, para impedir novas manobras, a exemplo do falso arremate na terça-feira da semana passada. Ele trabalhou durante 24 anos na usina e tem cerca de R$ 200 mil para receber. Atualmente é microempresário em Cambará.
A prima de Claudinei, Rosilei dos Anjos, trabalhou durante 10 anos como secretaria e não esconde a revolta com o impasse. "Isso já virou palhaçada; a minha paciência já se esgotou faz tempo. A gente fica contando os dias para acontecer esse leilão e o que a gente vê é isso. Enquanto não acontecer nada com essas pessoas (que impedem os leilões), eles vão continuar mandando gente para prejudicar o leilão", afirma. Ela fez um acordo para receber R$ 40 mil na época, mas com as correções, este valor deve ser o dobro agora.
Rosilei diz que várias pessoas que trabalharam na usina estão hoje em dificuldades financeiras porque não recebem seus direitos.
O Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Fabricação de Álcool de Jacarezinho e região estima que o débito trabalhista da Casquel passe de R$ 20 milhões.
O novo leilão da Casquel deverá ser realizado no dia 26 de novembro.

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