Londrina - Os hospitais filantrópicos do País, que atendem a maioria dos pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS), passam por sérias dificuldades financeiras. A situação é ainda pior nos hospitais de pequenas cidades, como é o caso do Norte Pioneiro.
A maior dificuldade, entretanto, é a falta de perspectivas para resolver o problema, diz o médico Luiz Soares Koury, presidente da Federação das Santas Casas de Misericórdia e Hospitais Beneficentes do Paraná (Femipa). A entidade reúne os hospitais filantrópicos do Estado, sendo seis da região.
Koury, que é diretor do Hospital Evangélico em Londrina, diz que no final do mês passado o governo federal anunciou a liberação de recursos para os hospitais filantrópicos, mas até agora os repasses não foram feitos. As instituições também esperam uma definição quanto à dívida que tem junto ao próprio governo e à rede bancária. A dívida, de acordo com o presidente da entidade, é causada pela defasagem do custo do atendimento e os valores pagos aos hospitais pelo governo federal.
Em entrevista especial à FOLHA, o presidente da Femipa diz que "a situação dos hospitais é grave e preocupante".

O que a Femipa espera em relação ao repasse anunciado pelo governo?
Que o trâmite burocrático seja agilizado o mais rápido possível para que o repasse chegue aqui na ponta, nas instituições que fazem o atendimento. Ninguém sabe quanto tempo vai demorar. E enquanto isso não acontece... a gente continua aqui, amargando a falta de recursos para atender melhor a população.

E houve algum avanço quanto ao parcelamento das dívidas dos hospitais?
Há uma lei, chamada Pro-SUS, que foi aprovada no Congresso Nacional e sancionada pela presidente Dilma em outubro. Essa lei tenta resolver a dívida que os hospitais filantrópicos têm no País inteiro com o governo federal. Qual é a origem da dívida? Os hospitais filantrópicos atendem pacientes do SUS e ele remunera muito mal as instituições. Para cada R$ 100 que se gasta para atender um paciente de SUS, o hospital recebe do governo R$ 60 a 65, e o restante o hospital arca. Ao longo dos anos, isso foi virando uma bola de neve e uma dívida que hoje é impagável. No Brasil, somados todos os hospitais, a dívida é de R$ 15 bilhões, sendo um terço para o governo federal e dois terços para os bancos. Os hospitais precisam recorrer a bancos para pagar seus funcionários, os honorários médicos e materiais. O Pro-SUS veio para tentar resolver a dívida com o governo. Se os hospitais daqui para a frente passarem a recolher mensalmente os impostos, ao final de 15 anos poderá estar remida a dívida passada. Mas essa lei ainda não está em vigor. Os hospitais também estão pleitando juros mais baixos assim como outras áreas da economia estão conseguindo.

Qual a realidade atual dos hospitais em cidades menores, especialmente no Norte Pioneiro?
A situação é extremamente grave e preocupante com a manutenção desses hospitais. Os hospitais maiores, que fazem procedimentos de alta complexidade, já estão em uma situação financeira precária. Os hospitais menores têm uma dificuldade maior porque eles não conseguem, na sua maioria, médicos especialistas nas áreas necessárias para dar o atendimento mínimo à população. Eles acabam prestando a primeira assistência e sendo obrigados a transferir os pacientes para as cidades maiores. Às vezes, a transferência não é em ambulâncias adequadas, muitas vezes não conseguem vagas em tempo hábil. Então, precisa de uma organização melhor no sistema de saúde e também precisa que as unidades básicas de saúde funcionem bem para diminuir a demanda nos prontos-socorros. Muitos problemas e doenças podem ser resolvidos nos postos de saúde, desde que funcionem, que tenha médico lá, que tenha condições de atender. Os hospitais secundários também precisam funcionar bem para desafogar os terciários, aqueles que vão atender as doenças mais graves.

Diariamente, a gente vê carros de inúmeras cidades da região trazendo pacientes para Londrina. Alguns desses casos, poderiam ser tratados nas cidades de origem?
Com certeza, se houvesse um mínimo de organização nesse sistema. Hoje, em qualquer situação, se pega o telefone e liga na central de leitos e pede para transportar o paciente para Londrina. Mas alguns desses pacientes que vem, não precisariam vir. Eles poderiam ser tratados em seus municípios, se lá fosse investido para dar as condições adequadas naquele hospital para atender as doenças menos graves, mas que são possíveis de serem resolvidas. Não adianta trazer o médico de Cuba e colocar em um hospital que não tem nem esparadrapo. Não vai resolver também.

O programa Mais Médicos precisaria de mais coisas e não apenas importar os profissionais?
Eu sou suspeito para falar porque sou médico, mas acho que esse programa, absolutamente, não resolverá o problema. No Brasil, não faltam médicos; faltam condições no interior para atrair os médicos brasileiros. Para que eles se sintam confortáveis em ir para uma cidade menor e poder fazer aquela medicina que eles aprenderam na faculdade, com menos riscos para os pacientes. O médico também não quer correr risco desnecessário, de sofrer processo por um atendimento mal feito que, às vezes, não depende da capacidade dele e sim da estrutura que é colocada à sua disposição. Isso tem que ser levado em consideração. Qual a responsabilidade que esses médicos que estão vindo de fora terão com uma situação dessas? Eles têm um contrato provisório de três anos, depois eles vão embora e os pacientes que tiverem alguma questão jurídica vão se queixar para quem? Vão acionar quem? O médico que voltou para Cuba vai responder processo no Brasil? Essas coisas não estão bem explicadas e não são solução. A solução não é ter apenas o médico sentado em um posto de saúde. Os postos de saúde precisam dar uma assistência mínima à população, mas isso só não basta.

O que precisaria ser feito, então, para atrair o médico para o interior?
Uma carreira de Estado. Quando você leva um promotor ou um juiz para o interior, você leva com um salário digno; ele sabe que está em início de carreira; que não está condenado a passar o resto de sua vida em uma cidade que não lhe dá condições de criar seus filhos com um mínimo de escolaridade, mas eles sabem que aquele é um sacrifício que vão fazer no início da carreira, depois eles serão transferidos para um grande centro e outro mais jovem irá substituí-lo. No Brasil, não existe uma carreira de Estado para médico, mas tem para promotor e juiz, e por isso consegue colocar esses profissionais nas pequenas cidades. Porque não faz o mesmo com os médicos?

Com tantas dificuldades, como os hospitais de cidades menores sobrevivem? Como se fecha essa conta?
Na realidade, essa conta nunca fecha. Eles fecham as portas, e uma quantidade enorme de hospitais já fecharam no Brasil. Eles simplesmente desaparecem. E às vezes a cidade fica sem nenhum hospital porque aquele era o único, ou era um hospital filantrópico, ou era um hospital de um médico pioneiro que construiu o seu hospital e depois não conseguiu mantê-lo, ou é um hospital público que vive com recursos do município.

Em Santa Mariana, houve um problema no hospital durante vários anos e o prefeito que assumiu no começo do ano repassou o hospital para uma empresa em regime de concessão de uso. Esse modelo de gestão poderia funcionar para que o hospital público seja administrado pela iniciativa privada?
Eu acho que pode. Isso acontece com maior frequência no Estado de São Paulo. Mas é óbvio que tem que se escolher empresas sérias, com tradição na cidade, conhecidas, com experiência no ramo hospitalar. Eu não tenho nada contra a iniciativa privada. Pelo contrário, os exemplos mostram, no Brasil, que ela costuma ser mais eficiente, mas ágil e com um custo menor.

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