Famílias invadem casas inacabadas em Jacarezinho
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terça-feira, 23 de junho de 2015
Ana Paula Nascimento<br>Reportagem Local 
Há pouco mais de um mês um grupo de 60 pessoas ocuparam oito casas inacabadas da Vila Scyllas Peixoto, em Jacarezinho, bairro antigo do município. Quase concomitantemente, um terreno particular ao fundo de onde as casas estão instaladas também foi invadido, mas o terreno agora está vazio após execução de ordem de reintegração de posse. Ao todo, estima-se que anteriormente haveria no local mais de 220 pessoas instaladas de forma irregular. Desde 2013, esses seriam os primeiros casos de invasão do município.
A primeira família a se instalar na Vila Scyllas foi a de Ana Lucia Rodrigues dos Santos, natural de Ourinhos (SP). Com 20 anos, ela é mãe de dois filhos - de cinco anos e um ano e meio - e atualmente sobrevive de meia pensão por morte (da sua mãe) e doações da comunidade. Após o seu marido, de 21 anos, ser preso duas vezes recentemente por roubo, agora ele está internado para tratamento de vício em crack, o que deve durar nove meses. "Ele tinha um trabalho temporário em uma fazenda em Chavantes (SP). Depois viemos para cá, com o convite para morar em uma casa em que não teríamos de pagar aluguel. Como esse combinado não deu certo, fomos despejados, não tínhamos para onde ir e o jeito foi invadir essa casa que sabíamos que estava abandonada. Meu pai é alcoólatra, está sumido, e a família do meu marido também não tem como ajudar ", conta a jovem, que estudou até a sexta série e está conseguindo manter os filhos em escola próxima.
Na casa onde mora - em que fica em destaque um grande número 1 pintado com tinta branca -, o telhado já está coberto, após doações de telhas e tijolos da comunidade, mas o piso é de terra batida, não há portas e nem banheiro situação semelhante a das outras casas do local. "O pessoal do bairro ajuda e deixa a gente usar o banheiro. Para lavar roupa, encho umas garrafas PET com água da escola e trago no carrinho de bebê até aqui", relata. "Tenho esperança de que seja possível continuar na casa, quem sabe a gente até consiga negociar um aluguel que a gente possa pagar", almeja.
O pedreiro Antônio Lourenço, 54 anos, mora de aluguel no bairro há mais de 40 anos e nas horas vagas ajuda nos reparos das casas invadidas. Foi dele também a iniciativa de protocolar na Prefeitura um documento informando sobre a situação precária desses moradores. "Dá dó, é uma situação triste de ver. Tem muita gente desempregada e alguma coisa precisa ser feita. Antes deles virem, isso aqui estava um mato só. Pelo menos, agora está tudo mais limpo", argumenta, lembrando que conseguiram a doação de um poste de luz e estão na expectativa de que haja instalação de água.
Segundo o secretário municipal de Assistência Social, Sidnei Ferreira, as casas invadidas são remanescentes de um projeto habitacional que previa 27 casas para atender famílias pré-cadastradas que foram vítimas de enchente de 2009, quando houve o transbordamento do Ribeirão Ourinhos, sendo que apenas três residências do total previsto foram entregues efetivamente. "Na época, ainda em outra gestão, a construtora que venceu o edital acabou abandonando a obra devido a divergências de preços da obra. Isso gerou uma série de processos burocráticos para realinhamento de preços e, só recentemente, tivemos a liberação para a abertura de outro edital. Agora estamos prevendo que em no máximo em 60 dias já tenhamos a definição da construtora que irá concluir essa obra", afirma o secretário, que na semana passada participou de reunião na sede da Companhia de Habitação do Paraná, em Curitiba, para tratar do assunto.
"A nossa demanda é na verdade de duas mil casas, mas o município não tem recursos próprios para uma obra desse porte. Precisamos de apoio dos governos estadual e federal e estamos confiantes de que iremos conseguir, embora por enquanto não esteja nada definido", destacou, sendo que o município já entrou com pedido de reintegração de posse da área pública invadida junto ao Ministério Público Federal.
A supervisora de unidades da Secretaria Municipal de Assistência Social, Cíntia Bueno Ferreira Garcia, pondera que pela situação de irregularidade das famílias instaladas na Vila Scyllas não é possível prestar qualquer tipo de atendimento antes de um levantamento detalhado sobre a situação e cadastro do perfil social dos ocupantes. Segundo ela, é preocupante também que a população fique apoiando esse tipo de situação, o que acabaria fomentando a permanência irregular dessas pessoas.
"Já solicitamos uma lista com os dados das famílias, mas até agora eles não nos enviaram e fica difícil qualquer encaminhamento, ainda mais com os atrasos dos recursos provenientes do governo federal. Temos alguns programas municipais de geração de renda, com cursos na área de culinária e estética, por exemplo, que poderiam ser direcionados a esse público, mas há resistência quanto a isso também. Eles reclamam dos horários dos cursos, mas existem várias opções, inclusive com a possibilidade de levarem os filhos juntos e receberem lanche também", garante a supervisora, que informa que atualmente a secretaria presta atendimento a 10 mil famílias em situação de risco social por meio de diversos programas. A recomendação é que as famílias procurem as unidades dos Centros de Referência à Assistência Social (Cras).


