Faltou ação preventiva na estação vulnerável
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terça-feira, 05 de março de 2013
Widson Schwartz<BR>Especial para FOLHA 
Joaquim Távora - No sentido oposto de coisa derrubada, "tombamento" soa como palavra mágica, na sinonímia de "abre-te, sésamo", "abracadabra", por sugerir que estarão protegidos, pela interferência do Estado, imóveis e outros bens de interesse público, ainda que sejam particulares. "Estava tombada", resumiu Elga Oliveti Moreno, olhando para os escombros da estação ferroviária de Joaquim Távora, destruída pelo fogo. Restou o alicerce de alvenaria, "feito pelo sr. Joaquim Português, que sabia fazer muito bem" e legou outra obras semelhantes, segundo Elga.
A destruição reflete a ineficácia do simples anúncio de tombamento nunca sucedido pela guarda da estação, a única de madeira entre as quatro com projetos de restauração no ramal Marques dos Reis-Jaguariaíva e, portanto, a mais vulnerável. "Agora é cinza, tudo acabado e nada mais" como no samba clássico de Bide & Marçal.
Não se tem notícia de que o poder público municipal tenha cogitado preservá-la pelo uso, o que seria possível mediante comodato, doação ou compra, iniciativa consagrada em outras cidades. Quando cessou o tráfego no ramal e o patrimônio não interessava à Rede Ferroviária Federal S.A. (RFFSA) nem à concessionária, a América Latina Logística (ALL), a Prefeitura poderia obtê-lo por requerimento à Superintendência do Patrimônio da União no Paraná (SPU-PR).
Aventou-se, apenas, a hipótese de um museu na estação, segundo pessoas da comunidade.
Supostamente iniciado por dois garotos de 10 anos que brincavam, o fogo pôs fim à edificação, no entardecer de 5 de fevereiro. Estava abandonada e vinha sendo usada alternadamente por andarilhos, famílias carentes de moradia e consumidores de drogas. Morador ao norte da cidade, que "cruza a linha" diariamente, Maurílio Borges contou que ele e os vizinhos perceberam o incêndio a distância e logo deduziram que era na estação.
Elo de gerações
Construída em 1923 e inaugurada oficialmente em 27 de setembro de 1926, no então distrito de Afonso Camargo, a estação de Joaquim Távora assemelhava-se à de Wenceslau Braz, também de madeira, erguida em 1918 e demolida presumivelmente em 2005 ou 2006, pela ALL.
"A gente fica pensando o que vai ser agora, se vão construir de novo", preocupa-se Elga Oliveti Moreno, lembrando que a cidade cresceu a partir da estação, que se tornou até objeto afetivo para muitos tavorenses. Foi, por exemplo, o elo entre a família de Elga e a do marido, Darcy Moreno, pois ele nasceu em 1939 no restaurante ao lado da estação.
O português José Júlio Moreno, pai de Darcy, transportava em carroça mercadorias que chegavam de trem e se tornou concessionário do restaurante, que pertencia à ferrovia e funcionava naquela "casa bem comprida", também moradia. Ficava entre a estação e a residência do agente da ferrovia.
Tavorense de 1942, Elga recorda que nos primeiros anos 50 o agente da ferrovia era o "sr. Alencar", tido por autoridade. E aos olhos da adolescente, levava o jeito. "Vestia roupa de militar, pessoa muito autoritária, talvez por causa do telégrafo", presumiam, considerando a relevância daquele meio de comunicação à época. Darcy Moreno morreu há 20 anos.
Elga observou que o incêndio despertou o interesse pela história e ocorre uma mobilização nas escolas.
Ao empresário Joel Alvarenga parece difícil uma alternativa que não seja a construção de uma réplica. Mas "é raro" o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) "considerar a possibilidade de uma reconstituição", disse à FOLHA o superintendente no Paraná, José La Pastina Filho. "Por vezes, a perda do valor histórico é irreversível" numa destruição, lembrou.
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