Guapirama - Em meio a uma plantação de milho no bairro Jaboticabal, em Guapirama, estátuas de até três metros de altura de alvenaria, que antes ornamentavam um jardim japonês, hoje se misturam a lavoura e ao mato. O local, conhecido por Chácara do Buda, chegou a ser considerado ponto turístico e patrimônio cultural da cidade. Esquecidas pela cidade, as estátuas inspiradas na cultura japonesa - representada por budas e guerreiros nipônicos - e imagens religiosas estão se deteriorando pela ação do tempo. Das 30 esculturas que chegou a agrupar, hoje apenas quinze estão em pé e em péssimas condições de conservação.
A chácara tornou-se famosa na década de 70, quando o imigrante japonês e agricultor Kanekuma Warikoda comprou a propriedade de cerca de dois alqueires. Além do cultivo de culturas tradicionais como milho, batata e feijão, ele dedicou-se a um jardim, onde deu início a construção de estátuas de budas e de santos da Igreja Católica, como a imagem de Nossa Senhora Aparecida e uma miniatura do Cristo Redentor, promovendo uma verdadeira miscigenação entre a cultura oriental e o catolicismo.
De acordo com os moradores de propriedades vizinhas, Warikoda dizia que suas esculturas serviam para representar sua fé e fortalecer suas origens.
O agricultor Oscar Kazo Oizumi, que reside próximo a localidade há 50 anos, revela que foi proprietário da área e a vendeu para Warikoda. "Assim que comprou as terras, ele começou a construir um jardim e logo depois as estátuas. Ele ergueu todas sozinho e também fez um bosque com peixes ornamentais e uma capelinha", conta o agricultor, que também é descendente de japoneses. "Warikoda já tinha idade avançada, mas as ergueu com as próprias mãos usando tijolos, cimento e argila. Logo depois de terminadas, elas já chamavam a atenção e o povo da cidade vinha conhecer o lugar e não demorou muito tempo para que turistas de todo Estado viessem visitar", lembra.
O escultor das estátuas também organizava festas, com apresentações culturais e pratos tradicionais da culinária nipônica. "Tinha orgulho de ver aquele movimento num lugar que trazia um pouco da minha cultura. Até hoje aparecem turistas perguntando das estátuas, pena que elas estão destruídas", diz o agricultor.

Abandono
A Chácara do Buda caiu em declínio em meados da década de 80, quando Kanekuma Warikoda vendeu a propriedade e mudou-se para a casa dos filhos no Estado de São Paulo, em virtude da velhice. Sem conservação e incentivos, o local deixou de ser visitado por turistas e sofreu com a ação do tempo e vândalos.
Em 2002, um grupo formado por estudantes de Guapirama deu início a revitalização do local, com a instalação de brinquedos, campo de futebol, limpeza do acesso e restauração das imagens. Liderados pelo advogado e professor universitário Éder Nogueira e pelo servidor público Amauri de Almeida, a chácara retomou o título de patrimônio turístico do município. "Fazíamos o trabalho de educação ambiental com as crianças e ressaltávamos a importância cultural que aquele local tem para a cidade. As estátuas estavam destruídas e nós as restauramos baseados em fotos antigas, a ideia era que ali se tornasse além de um ponto turístico, um local de educação e lazer", conta Nogueira.
Cinco anos depois, devido a falta de incentivo do setor público e da iniciativa privada, o local foi novamente abandonado. Um processo na justiça chegou a ser aberto na época para desapropriar a área e transformá-la legalmente em patrimônio público, mas a propriedade foi dividida e hoje ela pertence a um agropecuarista de Santo Antônio da Platina.
O imigrante japonês que fez as esculturas faleceu em 1993, mas antes chegou a construir outras réplicas na casa dos filhos em Mogi da Cruzes (SP). Quem passa pela entrada da chácara, nem imagina que um dia a localidade foi ponto de lazer, cultura e história do município.

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