''Olha, você vai fazer parte da mesa de negociações. Mas presta bem atenção! Não vai poder abrir a boca por nada, a não ser quando eu perguntar ou te autorizar. Entendeu? Entendi, sim senhor...'' Aquele negócio do manda quem pode, obedece quem tem juízo. É exatamente este o tratamento que os países- chamados primos ricos dispensam aos demais membros, entre eles o Brasil, da Organização Mundial do Comércio (OMC).

Só que o Brasil, parece, não está mais aceitando esta condição de mero coadjuvante na mesa de negociações. Quer, também, cartear. E se possível, jogar de mão. Embora não seja interessante aos países ricos, por motivos óbvios, admitir tal possibilidade, ela é mais real do que nunca.

Tanto que na próxima rodada de negociações da OMC a postura brasileira será de muito a demandar e pouco a temer, segundo o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Sérgio Amaral.

Estados Unidos e União Européia serão pressionados para que mantenham a discussão, sem exceção, da abertura do comércio agrícola, inclusive com o fim dos subsídios. Uma tarefa árdua, mas que conta com o apoio de outros países.

Mas isso não é tudo. O congresso americano quer monitorar as negociações de uma lista de 297 produtos agrícolas, todos de interesse brasileiro; entre eles as carnes, os lácteos, frutas e legumes, tabaco e algodão. Se este monitoramento vier a ocorrer, Brasil e outros sócios da OMC e da Alca, irão ameaçar a negociação sobre produtos sensíveis aos Estados Unidos. Ou seja: pagarão com a mesma moeda.

Esta posição de liderança assumida pelo Brasil, o fortalece junto aos demais membros da OMC, que querem o fim de barreiras econômicas injustas e desonestas. Com firmeza, união e decisão é possível. O que não é possível mais é o mundo trabalhar e produzir só para o bem estar de americanos e europeus. É chegada a hora do basta!

Saldo positivo

O ano de 2001 vai chegando ao fim com um saldo extremamente positivo para a pecuária de corte brasileira. No primeiro semestre chegou-se a criar um clima de temor, por dois motivos: boicote comercial canadense aos nossos produtos, e, ao mesmo tempo, acusação infundada de que nosso rebanho era portador da doença da vaca louca, e o reaparecimento da febre aftosa no Rio Grande do Sul, que tinha o status de zona livre de aftosa sem vacinação.

No caso do boicote canadense, o tiro saiu pela culatra. Obtivemos uma vitória saborosa sobre uma das grandes potências. Além de ficar provado que nosso rebanho é sadio serviu, também, para despertar um sentimento de brasilidade como há muito não se via e que deve ser exercido com mais frequência. Na oportunidade defendemos nossos interesses com veemência e protestamos, jogando produtos canadenses ao lixo, não desembarcando mercadorias de lá, etc.... Entendo que na verdade o Canadá nos fez um grande favor. Nossos produtos e, principalmente nossa carne, ficaram conhecidos em todo mundo, fato que nos abriu novos mercados.

Tão logo passou o episódio canadense, uma outra ducha de água fria se abateu sobre nós: o reaparecimento da febre aftosa em solo gaúcho uma irresponsabilidade inadmissível, tanto do governo estadual como do governo federal, que colocou em risco todo esforço da pecuária brasileira, que luta pelo reconhecimento de zona livre de aftosa sem vacinação. Mas nem este fato, que em outras épocas nos penalizaria, foi suficiente para atrapalhar nossas exportações. Tivemos mais sorte, que juízo.

No segundo semestre, a sorte mais uma vez nos favoreceu. A volta da febre aftosa, depois de décadas, na Argentina e no Uruguai, tradicionais exportadores, e no Reino Unido- que além disto registrou casos da doença da vaca louca caiu do céu para nossa carne, que passou a ser disputada por novos mercados.

Dizer que as conquistas da pecuária brasileira neste ano foram conseguidas somente através do fator sorte, é negar o trabalho sério de melhoria genética e sanitária que vem sendo desenvolvido por técnicos e pecuaristas. Esta dedicação ao desenvolvimento de estudos e programas, quer da iniciativa privada ou estatal ou, ainda, de entidades ligadas ao setor, esta transformando e modernizando a pecuária brasileira, que é, em todos os níveis ou análises, a mais promissora do mundo.

O mercado internacional está ao nosso dispor. Mas é bom ficar de olhos bem abertos, pois cobranças virão. Notadamente nas questões sanitária, ecológica e social.

mockup