Jacarezinho - A invasão das máquinas nas áreas de cana-de-açúcar substituindo o trabalho braçal de centenas de cortadores de cana não é mais motivo de preocupação para um grupo de trabalhadores de Jacarezinho. Antes das máquinas tornarem-se ameaça eles optaram por trocar as enxadas e os facões pelo artesanato em taboa, fibra de bananeira e argila. E suas vidas foram transformadas com a criação da Comfibra, uma associação de artesanato em fibra natural, sem fins lucrativos.
Em 2004, antes da consolidação da Comfibra o cenário em Jacarezinho era bem diferente do de hoje. As famílias que integram a associação, na época, eram formadas pelas classes C e D (82%) e apresentavam baixo nível de renda e escolaridade - 65% dos participantes eram analfabetos funcionais e 90% deles não tinham qualificação profissional -, com isso a taxa de desemprego também era alta, 60% desses trabalhadores não tinham carteira assinada.
Mesmo com as dificuldades vivenciadas no início da associação, a vontade de se aperfeiçoar e a abundância de matéria-prima orgânica disponível alimentavam um sonho, que em 2005 foi colocado em prática. Por meio de oficinas de tecelagem e cerâmica aproximadamente 1.200 pessoas foram capacitadas e os centros de trabalho nos bairros começaram a funcionar. ''Hoje a realidade da Comfibra é mais 'pé no chão' e gira em torno da sustentabilidade. No início a Petrobras bancava toda a matéria-prima e os artesãos só produziam e vendiam os produtos. O ciclo Petrobras acabou e a Comfibra passou a ter uma visão empreendedora, mas nem todos os artesãos permaneceram. Hoje os artesãos somam duas dezenas e todos são alfabetizados, conta Rubia Martoni, consultora do Sebrae Jacarezinho e gestora do projeto.
De acordo com ela, todo o desenvolvimento humano e a elevação da autoestima dessas pessoas estão diretamente ligados às capacitações, treinamentos, palestras e troca de experiências que os artesãos passaram a ter com a instalação da Comfibra. ''O relacionamento com a família e a comunidade melhorou significativamente, além deles poderem contar com uma melhor fonte de renda'', diz. ''Filhos de artesãos, que também fazem da arte o complemento de sua renda, estão terminando a faculdade'', comemora.
A Comfibra começou a ser estruturada a partir do projeto do Sebrae ''Bairro que Faz'' e semanalmente os 20 artesãos que compõe a associação reúnem-se para as reuniões no centro de artesanato, facilitando o acesso e a produção.
O artesanato, em regra, conforme Rubia, agrega valor a renda familiar. ''Nos meses de pico, final de ano e julho, o valor agregado com a venda das peças produzidas gira em torno de meio a um salário mínimo, dependendo do artesão'', diz.
Processo de Qualidade
Os produtos passam por controle de qualidade rígido, começando na seleção da fibra, até o acabamento final. Os artesãos que integram o grupo formam os preços, criam o design, formatam e produzem peças com inovações ou com as mudanças sugeridas. Eles cuidam ainda da capacitação artesanal para novos associados, negociam com fornecedores, certificam e embalam os produtos. ''Por mês mais de 300 peças são produzidas, o maior comprador é o estado de São Paulo'', informa Rubia.

mockup