Aos cuidados da caridade alheia
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 02 de dezembro de 2015
Luiz Guilherme Bannwart<br> Especial para a FOLHA 
Santo Antônio da Platina - Solteira, mãe de nove filhos e com sérios problemas de saúde, Izabel Cristina Soares, de 48 anos, vagava na semana passada pelas ruas de um bairro de Santo Antônio da Platina bastante transtornada e acompanhada de um dos filhos, de 6 anos. Seu comportamento chamou a atenção de uma equipe do Conselho Tutelar que seguia para uma ocorrência, além de mobilizar alguns moradores em seu socorro. Mais que uma ação de caridade, o caso expõe as mazelas a que muitos moradores de ruas são submetidos pela ausência de um local apropriado para receber e acompanhá-los.
Diante da gravidade da situação psíquica, a mulher foi encaminhada ao hospital para atendimento e a criança foi levada para um abrigo. No mesmo dia, o Conselho Tutelar fez contato com a Secretaria de Ação Social do município, que informou que nada poderia fazer para ajudar a moradora a não ser tentar localizar alguém da sua família para recebê-la.
A informação sensibilizou a presidente do Conselho Tutelar, Rosemari Alcântara Bertolini, que buscou o apoio de um grupo de pessoas para custear a hospedagem e e a alimentação da moradora de rua em um hotel do município. Ela recebeu também acompanhamento médico para controlar suas crises psíquicas. Quatro dias depois, a Secretaria de Ação Social localizou um dos filhos da moradora em Santa Catarina, que veio até Santo Antônio para buscar a mãe.
De acordo com o secretário municipal de Ação Social, Israel Junior da Silva, a segunda maior cidade do Norte Pioneiro não possui condições econômicas para construir um centro apropriado para receber esse grupo de pessoas, que aumenta a cada dia. Atualmente existem cerca de 40 moradores de rua cadastrados e assistidos pela prefeitura. Mas, segundo entidades sociais, o número de andarilhos espalhados pela cidade é superior ao divulgado pela secretaria.
"Infelizmente o município não tem como manter um albergue. Mas não é um problema exclusivo de Santo Antônio da Platina, e sim da grande maioria das cidades brasileiras." A alternativa, como sugere o secretário, seria a criação de um centro regional por meio da Associação dos Municípios do Norte Pioneiro (Amunorpi). "A proposta já foi discutida em uma única reunião e não avançou", lamenta.
Ainda conforme Israel Silva, muitos dos andarilhos chegam ao município nesta época do ano em busca de vantagens. "A maioria desse pessoal que temos cadastrado desaparece por um longo período, mas retorna no final do ano em busca de passagens", diz ele. A justificativa é quase sempre a mesma: "Dizem que vão encontrar parentes ou aproveitar oportunidades de emprego no litoral do Paraná ou de São Paulo."
A presidente do Conselho Tutelar, Rosemari Alcântara Bertolini, considera que a construção de uma Casa de Apoio deveria ser tratada como prioridade pelos gestores do município. "O caso da Izabel é apenas um dos que nos deparamos todos os dias na cidade. São vários andarilhos espalhados pelos bairros, muitos deles com crianças que vivem em condições lastimáveis. Algo precisa ser feito com urgência por nossas autoridades para resolver definitivamente o problema", diz Rosemari em tom de cobrança.


