A voz que vem da rua
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 01 de agosto de 2012
Eli Araujo <br> Reportagem local 
Um serviço de alto-falantes no centro de Santo Antonio da Platina lembra, de certa maneira, o cenário descrito pelo escritor inglês George Orwell no livro 1984. A diferença está no detalhe que a ficção retrata o controle do Estado sobre as pessoas, enquanto o sistema na cidade do Norte Pioneiro tem por objetivo prestar ''serviços'' à população.
É praticamente impossível andar por alguns quarteirões no centro sem ouvir o som ambiente que se propaga por cerca de 20 caixas instaladas em vários pontos da cidade, em intervalos aproximados de 50 metros.
O serviço foi criado pelo radialista Antonio Jacó, que veicula informações de ''utilidade pública'' em seu ''Big Brother particular''. São notas de falecimento, horários de alistamento militar, campanhas de vacinação, campanhas para manter a cidade limpa e até o que as pessoas devem fazer para não serem vítimas de golpes.
Mensagens do comércio local são transmitidas a maior parte do tempo. E como não poderia deixar de ser, as funerárias da cidade patrocinam as notas de falecimento. O serviço funciona em horário comercial nos dias úteis, aos sábados de manhã e também em uma noite na feira da lua.
Jacó está instalado em uma pequena sala de um edifício no centro da cidade, onde trabalha com seu filho. No local ficam o computador que veicula as mensagens e a cabine para as gravações.
O radialista diz que este é o único serviço do gênero que funciona sem interrupção na região. Segundo ele, há outros serviços de alto-falantes em duas ou três cidades do Norte Pioneiro, mas que só funcionam em algumas épocas do ano.
Antes de prestar este tipo de serviço, Jacó trabalhava com equipamentos de som em exposições agropecuárias em algumas cidades da região. Há oito anos, ele desistiu da rotina de viajante e resolveu transferir a estrutura para um espaço urbano com grande fluxo de pessoas. Jacó faz questão de frisar que o funcionamento do sistema de som é autorizado pela prefeitura e que ''está regularizado, inclusive com CNPJ, tudo certinho''.
O som ambiente não chega a incomodar. As pessoas que trabalham próximo dizem que nem percebem direito o som. Jacó mostra que tem autorização de órgãos ambientais para manter o volume em até 80 decibéis, mas garante que não passa dos 70. ''A gente preza pela qualidade e não pelo volume; aqui a pessoa pode atender o celular até embaixo de uma caixa (de som) que não atrapalha e é por isso que a gente não tem reclamação'', afirma o radialista.
O porém, é que ele não está sozinho. Algumas lojas colocam caixas de som na entrada de seus estabelecimentos, às vezes com um volume um pouco mais alto. A concorrência é tanta que alguns equipamentos são colocados até nas calçadas. E existem ainda os carros de som que percorrem as mesmas ruas no centro da cidade, com um volume mais alto, ficando difícil entender qualquer um dos três. Os veículos, às vezes, circulam bem próximos uns dos outros.
A reportagem da FOLHA conversou com alguns moradores de Santo Antonio da Platina sobre a ''variedade'' de sons no centro da cidade. O estudante universitário Diogo Vicente Ferreira diz que não se sente incomodado e considera útil a veiculação das mensagens de ''utilidade pública''.
A empresária Eli Audi da Rocha também não tem nada contra o som instalado nos postes ou nas lojas, mas reclama do excesso de barulho causado pelos carros de som que passam nas ruas de sua casa e que prejudicam o repouso de uma pessoa da família que está doente.


