Cornélio Procópio - Natural de Santa Mariana, Edilaine Rech tem mais que feitos esportivos para contar: sua vida é uma prova de superação. Aos quatro anos ela sofreu um grave acidente com queimaduras. "Brincava com meu irmão de fogueira e meu vestido pegou fogo", lembra. A pele da canela e posterior da coxa literalmente colaram, fazendo com que Edilaine tivesse que ficar dois anos na cadeira de rodas.
"Foi cerca de um ano na UTI e, depois, um longo tratamento, com cirurgias e fisioterapia, para ir aos poucos conseguindo estender a perna. Quando voltei para a escola, andava com os joelhos flexionados e tinha cicatrizes grandes nas pernas. Sofri muito bullying, fui uma criança isolada", lembra.
Na mesma época de seu acidente, Edilaine sofreu uma grande perda. "Minha mãe saiu de casa, abandonando a mim e meus cinco irmãos. Ficamos sozinhos com meu pai", conta. Como o pai trabalhava em propriedades rurais distantes, Edilaine ficou alguns anos morando em casas de diferentes famílias.
Perto dos 10 anos a garota já conseguia caminhar normalmente e mudou-se para Cornélio Procópio. Aos 12 passou a viver definitivamente com o pai. "Ele foi meu grande incentivador no esporte. Os médicos haviam recomendado que praticasse algum exercício. Como eu gostava de esportes individuais, optei pela corrida".
Foi em Cornélio que ela teve contato com a Marcha Atlética, por conta de uma atleta da cidade. "Eu a via marchando e achava lindo. Disse ao meu treinador da época que queria praticar, mas ele não deixou. Dizia que quem treinasse marcha não servia para nada. Mas eu fiquei apaixonada, e acordava 6h para treinar escondida", lembra.
Ela participou da primeira competição de Marcha Atlética aos 17 anos, sem o conhecimento do treinador. "Era um campeonato estadual e fiquei em 2º lugar. Quando voltei com a medalha, o diretor do projeto determinou que eu treinasse a marcha".
A partir de então ela teve de vencer um dos maiores desafios de sua vida: usar shorts. "Eu não vestia nada curto, pois tinha vergonha das minhas cicatrizes, que eram muito evidentes. Mas a marcha tem que ser feita de shorts, pois a calça esquenta e atrapalha o movimento. Eu me vi então num dilema: o amor pelo esporte ou o meu complexo por conta das minhas cicatrizes".
Ela não teve dúvida e optou pela marcha. "Eu passava na rua treinando e as pessoas ficavam olhando. Aos poucos fui superando tudo e passei a encarar com naturalidade. Essas cicatrizes são parte da minha história e ajudaram a me tornar a pessoa que sou hoje".
Ela diz que sua trajetória lhe fortaleceu, trabalhando o espírito de superação, essencial para as competições. "A marcha de 50 km exige muito mais do que técnica e preparo físico de alto nível, é preciso também grande autocontrole. Talvez todas essas marcas, no fim, tenham me dado o diferencial psicológico e físico que me possibilitaram concluir essa prova tão penosa." (R.P.)

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