A educação física e uma analogia com o apagão
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 13 de junho de 2001
André Rossato 
O momento atual da educação brasileira requer um ensino mais próximo da realidade do aluno. É um principio da Lei de Diretrizes e Bases (LDB) 9394/96 de 20 de dezembro de 1996 que vem ao encontro do grande momento que vive a educação física, visto que com a criação do Conselho Nacional de Educação Física (Confef) lei 9696/98 em 1º de setembro de 1998, em seu artigo 3º, estabelece a competência profissional em ações a serem desenvolvidas em um amplo universo técnico, científico e pedagógico.
Assim, faz-se necessário tratar a educação física escolar de forma contextualizada, pois será um fator decisivo para uma aprendizagem significativa. Tal prática ampliará a visão de conceitos, dos conteúdos, procedimentos, atitudes e valores.
Ou seja, o professor deve considerar a relação de aprendizagem e as vivências do educando de modo que transfira o conhecimento prévio para uma aplicação de novos conhecimentos e tenha condições de utilizá-los em sua vida.
Num primeiro momento a Educação Física, com a nova proposta curricular, foi a disciplina que teve maior redução de sua carga horária (no período noturno, por exemplo, foi em diversas regiões extinta cumprindo seu artigo 26, parágrafo 3º da LDB: ...sendo facultativa no ensino noturno, porém, se a ação pedagógica estivesse sendo bem realizada seria extinta?, ou ainda, os professores conheciam a possibilidade que a lei permite para a continuação da disciplina do curso?), e em outros períodos, a educação física se limitou a duas aulas ou uma. Por que isto ocorreu?
Podemos aqui realizar uma analogia entre estas duas situações tão diferentes e que se assemelham, o racionamento das aulas de educação física com o racionamento de energia o apagão (no dicionário, extinguir, ou ainda desligar, para o governo economizar, lucro...).
Para chegarmos ao racionamento, ao apagão das aulas e da luz, existem algumas questões que foram preponderantes. Falta de estrutura física nas escolas e falta de gerenciamento das estruturas de nossas usinas hidrelétricas, falta de material esportivo e didático, falta de chuva, falta de um trabalho profissional (professores, equipe pedagógica, direção) competente nas escolas, e falta de um planejamento adequado do governo com as políticas de infra-estrutura energética. Essas são algumas das justificativas encontradas.
Mas temos solução, vamos para o apagão, no período noturno ao invés de refletores nas quadras (no caso de escolas que possuem quadra) utilizaremos luzes fluorescentes, pois economiza mais... Vamos diminuir despesas com professores e colocar os amigos da escola para ministrar as aulas de educação física, e vamos ainda colocar os amigos do hospital (situação fictícia, parecida com os amigos da escola), pessoas colaboradoras que estarão no hospital para realizar cirurgias, economizando, assim, com médicos.
Será que o apagão e o racionamento das aulas estão servindo a interesses de alguma classe social ou grupo? Qual está sendo a nossa atitude frente ao racionamento de energia, e à falta de aula?
Sem dúvida a falta de aperfeiçoamento de alguns professores foi um dos fatores determinantes para a redução de carga horária, mas não se diminuiu o número de funcionários nas usinas e ainda assim temos que racionar. Criam-se os amigos da escola, mas não se criam os amigos do Senado, da Assembléia Legislativa, Executiva...
Precisamos sim, participar mais, se todos tivéssemos conhecimento das DCN em relação à quantidade de aulas saberíamos que em seu regimento escolar considerando a tábua de mandamentos, a escola, amparada pela LDB pode: ...ampliar a carga horária de determinado componente, inseri-lo dentro do horário de aulas, prestigiá-lo ou, simplesmente diminuí-lo, caso nenhuma ação seja implementada.
O momento é favorável e precisamos trabalhar juntos, todos os professores buscando qualidade e sem perder de vista que a questão da redução da carga horária não foi falha exclusiva do professor, mas sim de toda uma estrutura (escola, material e equipamentos, governo...)
Para tanto, acredito que o momento está para uma educação física contextualizada, ou seja, uma educação física que em seu âmbito escolar analise que não existe um cérebro que pensa e um homem que faz, o que existe é um ser uno que pensa e faz sem qualquer divisão. Platão, em 487 A.C. já dizia: Nada está separado de nada e o que não compreenderes em teu próprio corpo não compreenderá em lugar algum.
Defendo para a escola uma proposta clara de conteúdos do ponto de vista da classe social em que está inserido o aluno, o conteúdo deve viabilizar a leitura da realidade estabelecendo laços concretos com projetos políticos de mudanças sociais, e isso ao nosso entender é contextualizar.
Educação não é despesa. É investimento!
- André Rossato é mestrando em Educação pela Fafija e professor de Sociologia da Faefija e de Educação Física em Andirá


