As decisões que a Assembléia Nacional Popular da China oficializou ontem em Pequim anunciam uma nova era. Elas são o saldo da tragédia da Praça da Paz Celestial, que massacrou estudantes em junho de 1989. Uma nova equipe dirigente foi empossada, o que encerra o longo período em que Deng Xiaoping reinou. Citemos as três estrelas da nova equipe: Jiang Zemin, confirmado como presidente da República; Li Peng que, de primeiro-ministro, torna-se presidente da Assembléia (ele é o símbolo da repressão na Praça da Paz Celestial); e Zhu Rongji, que substitui Li Peng no cargo de primeiro-ministro.
É a figura de Zhu que suscita as interrogações. Ele se transforma no ‘‘homem forte’’. Por mais que ele já seja conhecido, não dá para imaginar os rumos que vai imprimir à China. Zhu é a ‘‘coqueluche do Ocidente’’. Ele já foi visto, nas reuniões de Davos, com um uísque na mão, conversando em inglês com os financistas alemães e franceses, ou com as estrelas da Escola de Chicago.
Em vista da facilidade com que se relaciona com os teóricos do capitalismo ocidental, chegou-se à conclusão de que Zhu seria o homem indicado para conduzir o seu país no rumo de uma economia liberal. Essa imagem parece um tanto simplista, dada a complexidade do homem.
Após estudar engenharia em Pequim, ele foi entronizado, a partir de 1951, na Comissão Estatal de Planejamento. Mas a campanha das ‘‘cem flores’’, desencadeada por Mao Tsetung, não lhe agradava. Aí, ele foi rotulado de ‘‘direitista’’ e mandado para uma fazenda por quatro anos. Em seguida, voltou para o Planejamento. Em 1969, quando a Revolução Cultural eclodiu, Zhu foi mandado de volta para o campo, durante cinco anos, para criar porcos e lavar latrinas.
Foi Deng quem o tirou das trevas. Suas virtudes de administrador puderam, finalmente, se exercer. Cada vez mais seduzido por seu talento, Deng o nomeou, em 1987, prefeito de Xangai. Triunfo! A enorme cidade, que 40 anos de marxismo tinham desmantelado, ressuscitou. Mas, depois da Praça da Paz Celestial, o senhor da China ficou muito embaraçado. Deng gostaria que o massacre fosse esquecido, mas não podia desautorizar Li Peng, que tinha restabelecido a ordem com um banho de sangue. Podia, entretanto, promover a ascensão de Zhu. Por isso, em 1991 nomeou-o vice-primeiro-ministro. E Zhu tomou nas mãos a economia.
A tarefa era difícil: a economia chinesa estava em plena efervescência. Tinham medo que ela disparasse de vez. Era necessário esfriá-la aos poquinhos. Zhu o conseguiu com um talento que fez o Ocidente admirá-lo. Nada de incêndio inflacionário. Mas os dirigentes e os diretores de empresas aprenderem a conhecer o caráter de Zhu, um homem áspero e autoritário.
Para o Ocidente a pergunta essencial ainda é: Zhu é mesmo um liberal? Num debate recente sobre as reformas, ele se opôs de forma resoluta àqueles que queriam acelerar e expandir as privatizações. É claro que ele vem mostrando ter consciência dos erros cometidos durante as primeiras décadas de comunismo, com a criação de conglomerados monstruosos e cheios de gorduras. Mas não pretende abrir a economia ao capital depressa demais nem de forma incondicional.
Na verdade, ele parece ser um bom discípulo de Deng, pragmático mais do que ideólogo. Desconfia das teorias, sejam elas ‘‘liberais’’ ou ‘‘coletivas’’. Como dizia seu protetor, pouco importa a cor do gato, desde que ele coma os ratos. Pragmático, portanto, mas profundamente ligado às prerrogativas do Estado, o que limita, bem entendido, as suas pretensas atrações pelo liberalismo.
Zhu tem a reputação de ter uma certa maleabilidade política. Em 1989, durante os motins, ele soube evitar a explosão em Xangai, graças à sua grande capacidade de falar com os estudantes. Por causa disso, não é considerado, em Pequim, partidário de medidas drásticas para sufocar as correntes que desejam mais liberdade. Seria isso o bastante para que o situemos entre os reformadores? Ninguém pode afirmá-lo. E, de qualquer maneira, mesmo como primeiro-ministro, Zhu Rongji fará parte de uma ‘‘direção colegiada’’, da qual participará um homem como Li Peng. E com este, a gente pode contar para vigiar os arroubos de seu brilhante colega.

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