Zerual começa a ceder
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sexta-feira, 09 de janeiro de 1998
Gilles Lapouge Paris 
O governo argelino do general Zerual protesta indignado, cada vez que um país estrangeiro propõe-se a ajudar o seu a sair do caos sangrento em que se enfiou dos pés à cabeça. A sequência interminável de 50, 100, 400 camponeses assassinados, noite após noite, deixa-o indiferente. Mas basta a Alemanha ou a França se comoverem com essa multidão de crianças chacinadas e lá vem Zerual lembrando que a Argélia é um país soberano e não tolera ingerência alguma em seus assuntos internos.
Hoje, porém, podemos ter certeza de que, apesar das contorções oficiais, o procedimento para a internacionalização do drama argelino (os terroristas provavelmente islâmicos contra os soldados da ditadura de Zerual) está em andamento. Há duas razões para explicá-lo. A primeira delas é que a infâmia vem se arrastando. Mas há, sobretudo, uma grande novidade: até agora, Washington vinha ignorando olimpicamente o horror argelino. Os EUA estavam apaixonados pelo Irã, a Líbia, o conflito árabe-israelense, mas não entendiam por que os europeus perdiam tanto tempo com esses acertos de contas entre fundamentalistas e militares.
Agora, tudo mudou. De repente, os EUA descobriram a Argélia, as chacinas, a tirania. E se alinham com os europeus, assumindo uma atitude ainda mais severa do que a de Paris. Mary Jane Deeb, editora do Middle East Journal, personagem muito influente, escreve: A comunidade internacional tem de ajudar a pôr fim ao conflito, condenar a violência como todo mundo tem feito, até mesmo o Irã recentemente. Temos de encorajar a Argélia a autorizar investigações feitas por observadores internacionais.
Fazendo eco a essas palavras de Mary Jane Deeb, vêm ocorrendo, há algumas semanas, numerosas reuniões entre franceses e americanos sobre os problemas argelinos. Dias atrás, ao mencionar a preocupação francesa com eles, o chanceler Hubert Védrine falava com a anuência e o apoio dos americanos. Os argelinos sabem disso. Por essa razão, denunciam, com irritação cada vez maior, o movimento visando a internacionalizar o conflito. Um dia desses, em Washington, falava-se muito nos diversos roteiros que se pode considerar, para o desenvolvimento da questão.
Dizia-se mais ou menos o seguinte: tentariam convencer Zerual a autorizar investigações internacionais sobre os massacres, como aconteceu na Bósnia, podendo levar à acusação de crime contra a humanidade. Outros conselheiros, porém, preferem que a comunidade internacional ponha-se de acordo para o envio de forças especiais, encarregadas de proteger a população civil. É mais ou menos o que a Europa vinha resmungando, havia vários meses, mas como os EUA não saíam de seu mutismo, Zerual não levava a coisa a sério. Hoje, porém, os EUA decidiram-se a falar. E estão dizendo a mesma coisa que Paris ou Bonn.


