Yeltsin defende rearme nuclear da Rússia
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 29 de abril de 1999
Roberto Scarfone ANSA 
O temor de uma confrontação global com a Otan levou Boris Yeltsin a propor ontem o rearmamento nuclear russo, pela primeira vez desde o fim da Guerra Fria, que para historiadores coincide com a chegada ao Kremlin de Mikhail Gorbatchev, há 15 anos.
Yeltsin presidiu na manhã de ontem uma reunião secretíssima do Conselho de Segurança Nacional dedicada aos arsenais nucleares e à reformulação da doutrina militar russa, depois de pelo menos 10 anos de persistente orientação para o desarmamento.
Cada um dos participantes, inclusive o presidente, responderá com sua cabeça por eventuais vazamentos de informação, disse o chefe de Estado ao dar início ontem às deliberações.
Para analistas, é evidente que a reformulação russa responde à guerra que trava a Otan contra a Iugoslávia - muito próxima da Rússia por razões geopolíticas, culturais, religiosas e históricas - e também à recente expansão da aliança atlântica para o Oriente.
Segundo vários observadores, o Conselho de Segurança acabou decidindo pelo reforço do poder nuclear russo quando uma nova doutrina da Otan emergiu na cúpula da semana passada em Washington marcando o 50º aniversário da aliança.
Depois de ter explicado que se tratava de uma reunião absolutamente reservada do Conselho de Segurança Nacional, Yeltsin convidou os generais - com exceção apenas do ministro da Defesa, marechal Igor Sergueiev - a deixarem a sala.
Alguns chefes militares protestaram enquanto saiam, disse o correspondente da televisão moscovita NTV.
No último momento Yeltsin fez entrar na sala o chefe do Estado Maior, Anatoli Kvashnin.
Diários locais escreveram que a resposta da Rússia está ligada a uma progressiva divergência com a Otan, que lentamente azedou as relações de parceiros estabelecida entre Moscou e Washington na era pós-Guerra Fria, depois da dissolução da URSS.
O processo de afastamento entre as duas superpotências nucleares se acentou com a inclusão seletiva e por etapas de países da Europa Central e Oriental na Otan, se aprofundou com os ataques ao Iraque e chegou ao fundo do poço com a guerra na Iugoslávia e a nova doutrina da aliança atlântica aprovada na cúpula de Washington, disseram observadores.
Segundo o vespertino Izvestia, um dos participantes da reunião do Conselho de Segurança, cujo nome foi omitido, disse que decidiu-se transferir recursos para o complexo militar-industrial a fim de substituir com novas armas nucleares as que já estão obsoletas.
Desde 1991, segundo analistas, o complexo militar-industrial, talvez o setor mais eficiente da economia na ex-URSS, se colocou contra as reformas pós-soviéticas impulsionadas por Yeltsin.
Entretanto, na manhã de ontem a Rússia conseguiu consolidar um acordo do Fundo Monetário Internacional para receber próximos 18 meses US$ 4,8 bilhões, vitais para uma economia à beira do colapso.
Os fundos destinados ao setor militar-industrial, para poder renovar o arsenal nuclear, certamente serão tirados dos investimentos das indústrias que produzem alimentos e bens de consumo, os quais a Rússia tem grande necessidade.


