O presidente russo Boris Yeltsin ameaçou pela primeira vez, ontem, uma implicação direta da Rússia no conflito iugoslavo, enquanto o presidente comunista da Duma falava de ‘‘apontar mísseis’’ contra os países agressores da Iugoslávia. ‘‘A Rússia não entrará no conflito armado na Iugoslávia, a não ser que os norte-americanos nos empurrem’’, afirmou Yeltsin em declarações transmitidas pela televisão. ‘‘Os Estados Unidos querem passar para as operações terrestres, querem simplesmente invadir a Iugoslávia e fazer dela um protetorado. Não podemos admitir isso’’, acrescentou o presidente russo. Yeltsin disse ainda que a Rússia não quer se deixar arrastar para um conflito militar nos Bálcãs, ‘‘a não ser que seja provocada pelos norte-americanos’’. Dirigindo-se aos países ocidentais, o presidente russo assinalou que ‘‘é hora de reconhecer os erros’’.
Entretanto, Yeltsin voltou a rejeitar a idéia, apresentada por vários líderes políticos, de uma entrega de armas à Iugoslávia.
Faltando uma semana para a votação na Duma de sua eventual destituição, o presidente russo não deve contrariar os comunistas nem os nacionalistas, majoritários na câmara baixa e partidários do apoio a Belgrado.
No dia 15, os deputados devem pronunciar-se sobre cinco acusações contra Yeltsin. Se uma delas for mantida, o processo de impeachment começará oficialmente.
Ameaça Por sua parte, o presidente comunista da Duma, Guennadi Seleznev, aumentou a tensão ontem ao afirmar que o chefe de Estado havia ordenado apontar mísseis ‘‘para os países que estão em guerra contra a Iugoslávia’’.
Pouco depois, o chefe do Estado-Maior das forças estratégicas, o general Anatoli Perminov, afirmou que suas unidades não receberam até agora nenhuma ordem no sentido de apontar seus mísseis.
O conselheiro diplomático do presidente Yeltsin, Serguei Prijodko, também desmentiu implicitamente as declarações de Seleznev, afirmando que ‘‘não se pode descartar que ações importantes da Otan na Iugoslávia exijam uma revisão da doutrina de defesa russa, mas é cedo para falar de medidas concretas’’.
Seleznev, de volta a Belgrado, foi também portador de um pedido de Slobodan Milosevic para integrar a Iugoslávia na união Rússia-Bielorrússia.
Segundo Seleznev, Yeltsin recebeu favoravelmente a proposta, que tinha rejeitado na véspera.
Por sua parte, Prijodko se mostrou muito prudente a respeito, afirmando que tal gestão seria longa.
‘‘Se houvesse uma união, nosso exército e nossa marinha deveriam estar na Iugoslávia’’, explicou o presidente da Duma.
Até agora, o presidente russo sempre havia dito que a Rússia não se envolveria no conflito. Suas declarações de ontem se apresentam pela primeira vez como a ameaça implícita de uma implicação direta russa no conflito.
Novamente Yeltsin se esforçou em designar claramente os Estados Unidos como único verdadeiro responsável pelo conflito. Uma posição que coincide com o renascimento dos sentimentos antiamericanos na opinião pública.

mockup