‘Chefe das máfias no país’’, para o ex-ministro da Economia, Domingo Cavallo, ‘‘o único que coloca medo no presidente Carlos Menem’’, segundo a ex-primeira-dama Zulema Yoma, ‘‘assassino do jornalista fotográfico José Luis Cabezas’’, para a maioria da população argentina. Esta é a descrição do empresário Alfredo Naguib Yabrán, que há exatamente um ano deixava a vida para entrar na História argentina como o vilão da década.
No dia 20 de maio do ano passado, Yabrán, que havia fugido da Justiça 15 dias antes, suicidou-se com um tiro de espingarda na boca em sua fazenda próxima à fronteira com o Uruguai, onde estava escondido. A notícia da morte de um dos empresários mais vinculados ao governo Menem foi um divisor de águas na política argentina. Com sua morte, a oposição, reunida na Aliança UCR-Frepaso, perdia o principal alvo das denúncias de corrupção envolvendo o entourage de Menem.
A fama de Yabrán cresceu quando tornou-se o principal suspeito de ser o mandante do assassinato do jornalista fotográfico José Luis Cabezas, que havia feito as primeiras fotos publicadas de Yabrán. A morte de Cabezas, em janeiro de 1997 indignou o país. Ao longo de um ano e meio milhares de passeatas em todo o país pediram o castigo de seus assassinos.
As estranhas circunstâncias do desaparecimento de Yabrán e seu posterior ressurgimento já morto, causaram suspeitas na população argentina: segundo uma pesquisa da revista ‘‘Notícias’’, um ano após a morte de Yabrán, 42% dos argentinos acreditam que o empresário ainda está vivo, escondido em algum lugar. Somente 29% consideram que está morto, e outros 29% não tem opinião formada. Há duas semanas, o empresário de correios privados José Ongaro, causou supresa ao afirmar que Yabrán estava vivo, morando fora do país, ‘‘possivelmente na Síria’’.
Horas depois, pálido e vacilante, Ongaro desmentia o que havia dito. A dúvida está na mente dos principais políticos do país, como o ex-ministro Cavallo e o candidato peronista à presidência, Eduardo Duhalde.
O exame de DNA confirmou que o corpo encontrado era o de Yabrán, e também as impressões digitais. No entanto, os mais desconfiados sustentam que Yabrán tinha influência na polícia para trocar as provas, e o exame de DNA foi feito por um primo do ministro do Interior, possível interessado em que o caso Yabrán concluísse o mais rápido possível. Como elemento novelesco, poucos días antes do ‘‘suicídio’’, Yabrán deu de presente a seu guarda-costas o livro ‘‘O Sócio’’, do escritor de best-sellers policiais John Grisham, onde um poderoso homem se faz de morto para fugir da Justiça.
Além disso, a retirada de Yabrán do cenário parece minuciosamente preparada: no auge de sua carreira, poucos meses antes de seu suicídio, vendeu grande parte de seu império, o que lhe possibilitou deixar US$ 1 bilhão a seus filhos e viúva.
Segundo sociólogos, a desconfiança argentina tem motivos de sobra, já que desde o início da década ocorreu uma longa sequência de fatos nebulosos envolvendo a credibilidade da Justiça. Entre elas, a investigação sobre o atentado à Embaixada de Israel, onde a Corte Suprema sustentou durante anos que a explosão havia ocorrido dentro do edifício (dando a entender que havia explodido um arsenal interno), e que não havia sido realizada por um carro bomba, apesar da cratera que havia na rua na frente da Embaixada.
Além disso, ainda é nebulosa a morte de Carlos Menem Jr., o filho do presidente, morto em um acidente de helicóptero. As únicas seis testemunhas do acidente e dos momentos imediatamente posteriores morreram em peculiares circunstâncias nos meses seguintes à morte de Menem Jr. Além disso, as provas também desapareceram: somente resta 15% da fuselagem do helicóptero, que poderia comprovar se sua morte foi ou não um atentado.
Filho de imigrantes sírios, Yabrán nasceu na cidadezinha de Larroque na província de Entre Ríos, onde trabalhou como sorveteiro.
Adolescente, partiu para Buenos Aires, onde começou trabalhando como motorista de uma transportadora de valores, para depois, durante a ditadura militar, e com a ajuda dela, transformar-se em dono de um vasto império empresarial, que controlava a impressão das carteiras de documentos, empresas de segurança privada, táxis aéreos e transporte de valores. Em quase todas as empresas Yabrán havia empregado ex-repressores da ditadura.

mockup