France Presse
De Paris
No atribulado Timor Leste, o líder separatista Xanana Gusmão, libertado esta terça-feira após longos anos de prisão, não consegue comemorar suas conquistas. Seu país está imerso em sangue e a morte de seu pai, segundo informações, ocorreu enquanto ele resistia às forças indonésias.
‘‘Choro por minha família, mas sobretudo por meu povo’’, disse Gusmão esta quinta-feira a Ana Gomes, chefe da Seção de Interesses de Portugal em Jacarta quando lhe foi informada a morte do pai.
Segundo uma fonte da resistência, Francisco Gusmão, professor de 82 anos, morreu esta terça-feira em Dili quando lutava contra as milícias pró-indonésias.
Enquanto a comunidade internacional e as siglas que representam o poder real como a ONU traçam estratégias, o Timor Leste sente na própria carne a carência dos grandes conceitos da humanidade – pelo menos deste século – como a democracia e as eleições por sufrágio universal.
A poucos dias de o povo timorense expressar maciçamente sua opção pela independência, a votação foi menosprezada pela arbitrariedade da violência e da barbárie.
Xanana Gusmão, libertado na terça-feira pelas autoridades indonésias, encarna há mais de 20 anos o espírito de resistência dos timorenses, sendo comparado com frequência a Che Guevara e Ho Chi Minh.
Com o correr do tempo, a figura do guerrilheiro deu lugar ao líder da construção, da moderação e da paz, sem que por isso inclusive em todos os anos de perseguição e cativeiro (esteve detido desde 1992) sua fé na independência do Timor vacilasse um só instante.
Poeta e jornalista – um livro de poemas seu foi publicado em 1998 em Portugal –, Xanana, cujo nome verdadeiro é José Alexandre Gusmão, nasceu em 20 de junho de 1946 em Manatuto, no Timor Leste quando então era colônia portuguesa.
Caçula de nove filhos do professor Francisco, estudou um tempo com os jesuítas, pois a Igreja Católica tem um forte reduto no Timor Leste e tradicionalmente suas escolas são muito importantes.
Desde 1973 fez os primeiros vínculos com o Fretilin, organização separatista armada que luta contra a tutela portuguesa.
Gusmão vai então para a Austrália, mas volta em 1975 ao Timor uma semana antes da invasão indonésia. Ele entra para a resistência do Fretilin e desde 1978 lidera o braço militar da organização.
Em 1983, negocia um cessar-fogo que provoca uma ruptura no movimento, cujas forças, muito enfraquecidas, se reduzem a uma centena de homens mal equipados.
Em 1989, Gusmão decidiu implantar as idéias separatistas do movimento entre as novas gerações e em novembro de 1991 o exército reprime de forma sangrenta uma manifestação pacífica em Dili, massacrando cem pessoas. O fato trouxe ao primeiro plano mundial o Timor e Xanana Gusmão.

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