A Nasa realizou, entre os dias 20 e 22 de julho, um ‘‘workshop’’ de astrobiologia. ‘‘Astrobiologia’’ é, segundo a definição da própria agência espacial, o estudo ‘‘da vida no universo, fornecendo uma base científica para a pesquisa da origem e da distribuição da vida’’.
Há alguns anos, a idéia de se procurar ‘‘vida no universo’’ (o que inclui o planeta Terra, mas também todo o resto) seria vista como um exercício de ficção científica - afinal, a ciência lida com fatos, e todos os fatos disponíveis dizem que só há vida na Terra, certo?
Mais ou menos. Na verdade, as últimas décadas de pesquisa científica mudaram um pouco a compreensão da ciência a respeito disso. Por exemplo, a biosfera terrestre se expandiu para muito além do que os biólogos de antigamente julgariam possível, até incluir ambientes que, embora fiquem neste mesmo planeta, poderiam, sem sombra de dúvida, ser chamados de ‘‘extraterrestres’’ pela maioria das pessoas.
‘‘Biosfera’’ é a parte do planeta capaz de suportar vida. No passado, acreditava-se que a biosfera terrestre se limitava à superfície dos mares e continentes, até uma certa profundidade, e dentro de condições bastante delicadas de equilíbrio térmico e químico. Mais recentemente, porém, sinais de vida foram encontrados em condições extremas, que nada ficam a dever às agruras do espaço sideral. Segundo a Nasa, os seres mais resistentes conhecidos são:
Pyrococcus furiosus: bactéria que vive em crateras vulcânicas, submetidas a temperaturas de até 113º C;
Crypotendolithotropos: seres que suportam temperaturas de até -15º C, na Antártida;
Certas bactérias que vivem em rochas soterradas a até 3 quilômetros de profundidade;
Organismos não-classificados, que sobrevivem em poças ácidas de pH 0,0 - uma acidez de 100%;
Bactéria alcalinófila, que suporta soluções alcalinas de pH 11; Deinococcus radiodurans, bactéria capaz de suportar radiações de até 5 Mrads;
Bacilus subtilis, que resistiu a 6 anos de permanência no espaço;
Streptococcus mitus, que sobreviveu, durante três anos, na Lua, na lente da câmera da sonda Surveyor III;
Alguns bacilos foram revividos depois de hibernarem por 40 milhões de anos nos intestinos de uma abelha preservada em âmbar;
Vida também foi encontrada nas Fossas Marianas, sob o mar, a uma pressão de 1,2 mil atmosferas;
E, claro, há o ser humano que, graças a recursos tecnológicos, é capaz de sobreviver por determinados períodos de tempo nos mais variados tipos de ambiente hostil.
Algumas das condições descritas acima não deixam nada a dever a locais como Marte, a Lua ou Europa, o satélite de Júpiter onde, suspeita-se, existe um oceano. E se o Streptococcus mitus suportou as condições ambientais da Lua por três anos, qual o impedimento - teórico, ao menos - à existência de bactérias já perfeitamente adaptadas ao ambiente lunar?
Em resumo, o conhecimento mais profundo sobre a vida na Terra levou os cientistas a reconhecerem a possibilidade de vida ‘‘lá fora’’. A ‘‘workshop’’ da Nasa foi realizada para sistematizar o conhecimento já disponível, e levantar as bases científicas da astrobiologia, uma nova ciência que lida com perguntas do tipo ‘‘como planetas habitáveis surgem e evoluem’’, ou ‘‘quais os princípios éticos de se tentar semear a vida em outros mundos’’.
Os resultados finais da ‘‘workshop’’ ainda não foram oficialmente divulgados. Mas o evento, apelidado de ‘‘roadmaps’’ (literalmente, ‘‘mapas rodoviários’’) provavelmente irá abrir mais caminhos que oferecer respostas. Desde maio de 98, a Nasa possui um setor dedicado à astrobiologia, e o instituto tem estado bem ativo. Em junho, aconteceu um evento que já aponta para a colonização do Sistema Solar. Chamou-se ‘‘Evolução e Ecologia além do planeta de origem’’. O site do Instituto de Astrobiologia da Nasa fica em http://astrobiology.arc.nasa.gov/.

mockup