O novo filme de Woody Allen, ''Anything Else'', abre hoje, fora de concurso, a 60 edição do Festival de Veneza. A novidade: pela primeira vez, Allen, alérgico a badalações, promete estar presente à estréia no Palácio dos Festivais, no Lido de Veneza. O fato de um antipop star, como Allen, dar as caras no Lido, é um trunfo e tanto do presidente da mostra, o suíço Moritz de Hadeln, em seu segundo ano de gestão.
Allen habituou-se a fazer de Veneza palco das pré-estréias dos seus filmes, mas nunca se dignou a apresentar-se, in loco. Adora a cidade, visita-a com frequência, mas fora dos períodos de agitação, no que mostra bom senso.
A presença do diretor americano não é a única conquista de Hadeln que, por não ser italiano, despertou muita polêmica ao ser indicado para dirigir a mostra. Foi uma indicação do governo Berlusconi e a classe cinematográfica italiana, hostil ao Cavaliere, sentiu-se mordida. Entendeu a indicação do suíço (com larga experiência na direção do Festival de Berlim) como uma desfeita a mais do governo aos cineastas. No ano passado, com pouco tempo e pressionado pelos opositores, De Hadeln organizou uma mostra apenas passável. ''Fizemos o que foi possível'', admitiu depois.
Agora, com folga de tempo e querendo exibir serviço, a nova direção parece disposta a mostrar a que veio: Veneza quer fazer um festival inesquecível nesta edição de números redondos. O festival ocorre pela 60 vez e o fato de ser o mais antigo do mundo, batendo seus congêneres de Cannes e Berlim, não exclui a necessidade de demonstrar vitalidade e senso de inovação.
A vitalidade vem dos grandes nomes que, diz-se pelos bastidores, reservaram seus novos trabalhos para Veneza, ''pulando'' Cannes. São os casos de Manoel de Oliveira, que vai ao Lido com ''Un Filme Falado''; da alemã Margareth von Trotta, com ''Rosenstrasse''; do chinês Tsai Ming-Liang, com ''Ru San''; do japonês Takeshi Kitano, com ''Zatoichi''; do mexicano Alejandro González IÀarritu, com ''21 Grams''; do israelense Amos Gitai, com ''Alila''; e do italiano Marco Bellocchio, com ''Buongiorno, Notte''.
Mesmo fora da competição, Veneza reserva alguns trunfos importantes, além de Woody Allen. Também fora de concurso está programada a badaladíssima visita de Bernardo Bertolucci à sua geração rebelde dos anos 60 com ''The Dreamers''. Esses sonhadores revolucionários, que fazem um balanço político e de vida tantos anos depois, devem figurar entre as atrações máximas do festival, embora não concorram a prêmios, senão, talvez, o do reconhecimento público de que nem tudo do que pensaram entrou para o museu jurássico da história.

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