France PresseCarochinhaClinton e a esposa Hillary lêem história infantil para crianças de escola pública, em WashingtonWASHINGTON - O festival de escândalos que assola Washington ampliou-se na semana passada em várias frentes, mas deixou uma forte impressão de que deve acabar em pizza. Primeiro, houve a notícia que o promotor especial Kenneth Starr, o advogado republicano encarregado das investigações do caso Whitewater e de seus vários desdobramentos, deixaria a função em meados do ano para assumir a direção da faculdade de Direito de uma universidade na Califórnia.
O promotor especial confirmou depois que, de fato, havia decidido aceitar novos desafios profissionais. Starr, um advogado supostamente inteligente, disse que sua saída não tinha nada de mais, porque ela não afetaria o curso dos trabalhos. Assessores da Casa Branca imediatamente interpretaram a partida de Starr como sinal de que as investigações não haviam produzido provas suficientes para indiciar Clinton ou sua mulher por crimes e previram o fim próximo do pesadelo que já dura três anos.
Bombardeado pela imprensa pela falta de cerimônia com que tratou a situação, Starr voltou atrás na sexta-feira e anunciou que ficará até a conclusão das investigações. Como seu novo compromisso profissional na Califórnia começa, em princípio, no dia 1º de agosto, a deselegante meia-volta do promotor passou a ser vista como sinal de que o caso Whitewater e suas várias ramificações caminham para um desfecho desanimador, nos próximos três a quatro meses.
O ocaso do Whitewater não deixará Washington sem escândalos. Duas comissões parlamentares de inquérito já estão sendo organizadas para investigar o bazar de tráfico de influência que a Casa Branca e o Partido Democrata montaram para financiar a campanha à reeleição de Clinton.
Por outro lado, o senador Daniel Patrick Moyninhan, de Nova York, companheiro de partido do presidente, tornou-se o primeiro democrata a pedir ao Departamento de Justiça que nomeie um promotor especial para investigar as várias alegações de que instalações federais e funções oficiais do governo foram usadas para arrecadar fundos de campanha de empresas e cidadãos não-americanos. Tanto uma coisa como outra são proibidas por lei.
O caso esquentou ainda mais depois que o jornalista Bob Woodward - que já tinha exposto o escândalo Watergate, que derrubou Nixon em 1974 - informou que os serviços de inteligência detectaram esforços da China para tentar influenciar decisões na Casa Branca canalizando contribuições em dinheiro para o Partido Democrata.
Na quinta-feira surgiu a primeira denúncia concreta de que John Huang - um americano de origem taiwanesa que comandou as operações do grupo indonésio Lippo nos EUA antes de ser nomeado alto funcionário do Departamento de Comércio, no início do governo Clinton - pediu a uma associação de empresários de origem asiática (com base em Washington) para servir como intermediária de uma contribuição de US$ 250 mil para o Partido Democrata. A iniciativa foi rejeitada. Huang negou a história.
Mas ontem ele anunciou, por meio de seu advogado, que se negaria a cooperar como a CPI da Câmara, sob a proteção da Quinta Emenda da Constituição americana, que permite a uma pessoa ficar calada para não se incriminar num processo. A comissão parlamentar, que lhe havia solicitado um depoimento e uma série de documentos relativos às transferência de fundos para a campanha, anunciou na noite de sexta-feira que obterá ordem judicial para obrigar Huang a cooperar.
A intimação será extensiva a Webster Hubbell, amigo próximo dos Clinton e ex-alto funcionário do Departamento de Justiça. Hubbell acaba de completar uma pena de 18 meses de prisão por ter fraudado prestações de contas profissionais na firma de advocacia Rose, de Little Rock, Arkansas, antes de mudar-se para Washington, em 1993. Entre meados de 1994 (quando o caso obrigou-o a deixar o governo) e meados de 1995 (quando foi para a cadeia), Hubbell foi contratado pelo grupo Lippo para fazer Deus sabe o quê.
A esses desdobramentos do escândalo sobre tráfico de influência somaram-se novas revelações sobre o acesso que criminosos de colarinho branco condenados pela Justiça tiveram a Clinton em almoços e jantares de até US$ 25 mil o prato, organizados para arrecadar fundos para a campanha.
Por ora, é difícil prever o alcance dessa vertente do festival de escândalos. Enquanto as suspeitas e alegações empilham-se na imprensa, alimentando o já intenso cinismo com que os americanos vêem seus políticos, Clinton e seus rivais republicanos comportam-se como se nada estivesse acontecendo.

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