Caracas - Prestes a completar nove anos no poder, o presidente da Venezuela, o esquerdista Hugo Chávez, enfrenta hoje um inédito desafio nas urnas para aprovar sua controvertida reforma constitucional, que encerra um ano inesperadamente turbulento para o governo.
A maioria das pesquisas divulgadas na semana passada mostra que, ao contrário das últimas nove eleições - entre referendos e disputas presidenciais e regionais -, Chávez e seus aliados não chegam ao final da campanha com uma clara vantagem. Praticamente todos os levantamentos dão uma vitória do ''não'' ou um empate técnico. A exceção é a Consultores 30-11, próxima do governo, que dá uma vantagem de 11 pontos percentuais ao ''sim''.
As pesquisas mostram também que, mesmo entre os eleitores chavistas, há uma forte oposição à reforma constitucional, principalmente contra a implantação da reeleição indefinida só para presidente e mudanças na propriedade privada.
O diretor do respeitado instituto Datanálisis, Luis Vicente León, tem dito que essa desvantagem é a grande novidade da campanha eleitoral deste ano. Mas ele adverte que o governo tem mais poder de mobilização do que a fragmentada oposição, que só fez um chamado claro ao voto na reta final.
Tempos difíceis - O referendo é o último evento político importante de um período especialmente difícil para Chávez, que um ano atrás comemorava uma vitória fácil nas eleições presidenciais, com mais de 60% dos votos válidos.
Logo após a vitória, Chávez deixou claro que sua proposta de ''socialismo do século 21'' não seria apenas retórica e anunciou uma agenda radical que incluiu a criação do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), a nacionalização da principal empresa de telecomunicações, a Cantv, o fim da concessão da emissora oposicionista RCTV e uma ampla reforma constitucional.
Com a oposição descomposta após mais uma derrota eleitoral, a maior resistência inicial à agenda chavista foi uma inesperada rebelião na base: o partido Podemos se recusou a diluir-se no PSUV e, aos poucos, se opôs também à reforma constitucional. E isso logo depois de ter conseguido, em dezembro, 759.826 votos à reeleição de Chávez (6,5% do total), convertendo-se na segunda força do oficialismo.
A surpresa seguinte para Chávez foi a onda de protestos de estudantes universitários contra a não-renovação da concessão da RCTV, medida que, segundo pesquisas de opinião na época, era rechaçada pela maioria da opinião pública.
Assim como ocorreu com o Podemos, os estudantes fazem uma dura oposição à reforma constitucional, protagonizando protestos que muitas vezes terminaram em choques com policiais e chavistas.
Chávez tem negado as dificuldades e mantém a estratégia de vincular a oposição ao ''império americano'' e de concentrar a campanha em torno de sua figura -com cerca de 60% de aprovação, ele é bem mais popular do que sua reforma. ''Os que votam pelo ''sim' estão votando por Chávez, os que votam pelo ''não' estão votando contra Chávez'', disse ao encerrar a campanha.

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