Voluntários sofrem no Haiti
PUBLICAÇÃO
domingo, 31 de janeiro de 2010
France Press 
Socorristas, soldados da ONU e até jornalistas traumatizados após presenciarem o espetáculo de dor e destruição, com corpos amontoados pelas ruas depois do terremoto que devastou Porto Príncipe, encontram no acampamento da Minustah a célula de apoio psicológico da ONU criada especialmente para estas circunstâncias.
Atendemos a cem pessoas por dia, explica à AFP Youssoupha Niang, uma psiquiatra que criou a célula de ajuda psicológica no dia seguinte à tragédia. Mais de duas semanas após o terremoto de 12 de janeiro, que deixou pelo menos 170 mil mortos e milhares de desaparecidos, a equipe de sete psicólogos atendeu a mais de 2 mil pessoas.
A Missão de Estabilização da ONU no Haiti (Minustah) sofreu um duro golpe: 84 empregados, entre eles o chefe da Minustah, Hedi Annabi, morreram no terremoto e outros 15 foram declarados desaparecidos.
Em cima de uma mesa, um manual de instruções indica o que deve ser feito e o que não deve logo após uma comoção assim: não beba muito álcool, continue trabalhando, e não finja que está tudo bem.
Os casos mais comuns são os de quem cuidou de cadá-veres, explica Niang. Alguns jamais tinham visto um cadáver, ou pelo menos não tantos. O sentimento de impotência é imenso e os sintomas se manifestam, explica a psiquiatra.
Niang atendeu a repórteres, principalmente fotógrafos e cinegrafistas, estas pessoas que se aproximaram da realidade através de suas lentes, que sobre o papel parecem ter distância, e que tiveram que seguir fazendo seu trabalho.
Ainda assim não fala do PTSD (Post Traumatic Stress Disorder), um estado de estresse pós-traumático que não é diagnosticado até um mês depois do ocorrido. Por enquanto, se trata de um estresse agudo e de fadiga, explica a psiquiatra. Ela destaca sinais de hiperatividade, hipervigilância constante, particularmente na base da ONU. Há alguns que emagrecem em poucos dias: emagrecem ainda que comam, já que a hiperatividade é tão grande que o que comem acaba não compensando o que perdem.
Alguns têm perdas de memória: não se lembram da conversa que tiveram minutos antes. Sem contar com insônia, aparecimento de hipertensão arterial e até perdas de sensações, uma maneira de se proteger que, como se fosse uma anestesia, faz a pessoa não sentir mais sua mão, por exemplo.
Marceus-Yves Joseph, um haitiano de 31 anos e integrante da Minustah, saiu de uma consulta. Vi muitos feridos embaixo de casas derrubadas e há 15 dias que não consigo entrar em um lugar com um teto e fico apenas embaixo das estrelas. Mas não durmo mais e isso tem tendência a piorar, afirma o homem de 1,90 metros de altura, com lágrimas nos olhos enquanto fala sobre ir dormir à noite.


