Vírus pode gerar 29 milhões de novos pobres na América Latina
Tensão social pode voltar ainda mais forte após crise provocada pela pandemia
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segunda-feira, 04 de maio de 2020
Tensão social pode voltar ainda mais forte após crise provocada pela pandemia
Sylvia Colombo – Folhapress 
Buenos Aires, Argentina - O vírus chegou primeiro ao Brasil. O primeiro caso de Covid-19 na América Latina surgiu no dia 26 de fevereiro, em São Paulo. Dois dias depois, outro caso foi confirmado na Cidade do México.

De cara, a pandemia entrou pela porta da frente, nas principais cidades das duas maiores economias da região. Em pouco mais de dois meses, já infectou 251.577 pessoas e matou mais de 13.445 na América Latina, de acordo com dados compilados pelo site Worldometers até a tarde de domingo (3).
As cifras, no entanto, podem ser muito maiores, uma vez que é grande a possibilidade de subnotificação, seja pela incapacidade de realizar testes em massa, seja pela falta de transparência de alguns governos.
O coronavírus ganhou contornos muito particulares na América Latina. Trata-se de uma região muito populosa, com mais de 613 milhões de habitantes, e formada por países que, em sua maioria, têm a desigualdade social como característica histórica.
Assim, onde 53% do mercado de trabalho é composto por informais, segundo a Organização Internacional do Trabalho, e os sistemas de saúde são menos preparados que os da Europa e dos EUA, os impactos econômicos e sanitários da Covid-19 são ainda maiores.
A Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe) apresentou em abril uma projeção pessimista para a América Latina, na qual haveria encolhimento de 5,3% do PIB regional em 2020.
"A consequência mais grave será o aumento da pobreza. A queda do PIB vai empurrar quase 29 milhões de latino-americanos para a pobreza", diz Alicia Bárcena, secretária-executiva da Cepal.
O vírus também encontrou uma América Latina com grandes polarizações políticas. Em 2019, levantes populares no Equador, Bolívia e Chile levaram latino-americanos às ruas contra o agravamento de crises econômicas. Passada a crise do coronavírus, é grande a chance de as demandas sociais voltarem com ainda mais força.
O símbolo do horror que a Covid-19 pode causar foi revelado no Equador. Em Guayaquil, coração econômico do país, o coronavírus se materializou nas imagens de corpos deixados por dias nas ruas ou dentro de casas, até que as autoridades sanitárias conseguissem recolhê-los.
O governo determinou medidas de restrição, entre as quais a quarentena e o toque de recolher. Quando a força-tarefa enviada pelo governo nacional chegou a Guayaquil, já era tarde demais. O trabalho do Exército foi confuso, sem registrar corretamente onde cada corpo foi enterrado.
Já na Venezuela, os números de infectados (345) e mortos (10) divulgados pelo governo são baixos. Médicos independentes, entretanto, desconfiam dos dados e afirmam que a pandemia ainda não ganhou força no país.
Se um aumento grande acontecer, porém, alertam para a situação do sistema de saúde do país. Organismos internacionais, como a ONG Human Rights Watch, afirmam que os hospitais não têm equipamentos nem recursos para enfrentar a pandemia. Em alguns faltam luz e água.
Há muita preocupação, também, com o pós-coronavírus. Para o analista político Juan Gabriel Tokatlian, é preciso observar o que vai acontecer nos países que já tiveram uma explosão social antes. "A pandemia é um hiato. Quando ela passar, os problemas de antes ressurgirão, potencializados pela crise econômica que a doença causará", diz.
Neste cenário, ele aponta Chile, Bolívia e Equador. "O Chile vinha de uma série de manifestações, e a esperança era que o plebiscito constitucional marcado para abril apaziguasse o país. A votação foi postergada, portanto o impasse permanece."
Na Bolívia, há inquietação devido ao adiamento das eleições presidenciais, marcadas inicialmente para 3 de maio pelo governo interino de Jeanine Añez. A oposição no Congresso, composta principalmente pelo MAS (Movimento ao Socialismo), partido do ex-presidente Evo Morales, não aceita uma nova votação apenas em outubro, como propôs Añez.
Na sexta-feira (1º), a Casa aprovou uma lei que determina a realização de eleições gerais em até 90 dias, prazo que vencerá no início de agosto.
Desde a renúncia de Evo, em novembro, a Bolívia vive clima de violência nas ruas. A pandemia fez com que os protestos se acalmassem, mas há denúncias da oposição de que Añez tem aproveitado a pandemia para militarizar ainda mais o país.
Já no Equador, existia um clima de suspense desde que o governo cedeu a atos nas ruas e recuou da alta na gasolina. "O presidente Lenín Moreno ainda tem de encontrar um modo de satisfazer o FMI [Fundo Monetário Internacional], que lhe emprestou dinheiro, sem causar a fúria das comunidades indígenas", avalia Tokatlian.
Na Argentina, em quarentena obrigatória nacional desde 18 de março, há uma sensação de que a crise sanitária está contida. O presidente Alberto Fernández tem sido duro ao impor restrições. Só que a economia, que já não ia bem, deve sofrer forte abalo quando acabar a pandemia.
"Fernández tem tudo para se sair bem da crise sanitária, mas a Argentina estará muito endividada e com risco de entrar num período de hiperinflação, por conta da emissão monetária", diz Tokatlian.


